As gravações de conversas tornaram-se famosas no Brasil há cerca de 20 anos. O cacique xavante Mário Juruna (foto) - eleito em 1982 deputado federal pelo PDT do Rio de Janeiro - só ia ao encontro dos brancos com um gravador a tiracolo. Ele dizia que os brancos não eram confiáveis. No caso dos arapongas da extremidade ocidental do País está provada coisa semelhante, mas não diz respeito a raça: os políticos de lá é que não confiam nos políticos de lá.
A aprovação da emenda constitucional que permite a reeleição do presidente da República, dos governadores e dos prefeitos - sem que sejam obrigados a deixar o cargo - aumentou em muito a desconfiança entre os políticos. No caso da gravação de uma conversa do governador de Rondônia, Waldir Raupp (PMDB), feita pelo deputado Emerson Olavo Pires (PSDB-RO) no início de outubro, está claro que tudo foi motivado pela reeleição.
Emerson Pires está ligado à facção do senador José Bianco e dos deputados Expedito Júnior, Oscar Andrade e Silvernani Santos, todos do PFL. Bianco planejava candidatar-se ao governo do Estado havia anos. Ele fez tudo direitinho. Expulsou o senador Odacir Soares da presidência do PFL depois de 16 anos - e também do partido - e deixou o caminho limpo. Mas a emenda da reeleição e a vantagem de Raupp, de permanecer no cargo durante a campanha, atrapalharam os planos do senador.
Aliado a outro pretendente ao governo - o senador Ernandes Amorim (PPB) -, Bianco e os deputados atacam tudo o que possa ajudar na reeleição de Raupp. Eles conseguiram impedir que o Orçamento da União do ano que vem contemplasse Rondônia com mais R$ 131,5 milhões. No Senado, lutam para impedir a assinatura de um convênio de Rondônia com o governo federal, que permitirá o repasse de R$ 66 milhões para a privatização da Companhia de Eletricidade de Rondônia (Ceron), alvo de denúncias de irregularidades.
Os senadores e os deputados alegam que o dinheiro será utilizado para a campanha de Raupp. Ao revelar o teor da conversa com o governador - justamente sobre o dinheiro da Ceron e sua destinação -, Emerson Pires disse que a campanha já havia começado - o que seria ‘‘uma desonestidade’’ com os adversários. O Acre também deverá receber dinheiro do governo federal para vender a Eletroacre. Os adversários de Orleir Cameli fazem os mesmos questionamentos. O dinheiro - não têm dúvida - será usado na reeleição. É mais trabalho para os arapongas.

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