Guerra de memes antecipa debate eleitoral nas redes
Após amplo domínio da direita nas plataformas digitais, PT equilibra o jogo com vídeo "Nós contra eles" sobre taxação de milionários
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 11 de julho de 2025
Após amplo domínio da direita nas plataformas digitais, PT equilibra o jogo com vídeo "Nós contra eles" sobre taxação de milionários
José Marcos Lopes, especial para a Folha 

Curitiba - O vídeo “Nós contra eles”, que defende a taxação do grupo definido como BBB (bilionários, bancos e bets), marcou uma virada na comunicação do terceiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Se antes a direita tinha amplo domínio das redes sociais e conseguia impor suas versões com relativa facilidade, o vídeo feito com o uso de Inteligência Artificial e divulgado PT atingiu um grande público e parece ter equilibrado a guerra de memes que vem antecipando a campanha eleitoral.
A peça foi divulgada depois que a Câmara dos Deputados derrubou o decreto de Lula que aumentava as alíquotas do Imposto sobre IOF (Imposto sobre Operações Financeiras). As avaliações negativas do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), dispararam, segundo pesquisa AtlasIntel/Bloomberg feita no fim de junho, para 75% e 74%, respectivamente.
A avaliação de especialistas ouvidas pela FOLHA é que a comunicação do governo melhorou e que um elemento que deve entrar com força no debate é a taxação a produtos brasileiros, anunciada na quarta-feira (9) pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Ao vincular o aumento da alíquota a uma suposta “perseguição” ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Trump deixou o setor bolsonarista da direita em uma situação difícil, já que a taxação vai atingir setores como a indústria do aço e o agronegócio brasileiro.
“A comunicação do governo federal parece ter demorado para acordar para a língua das redes sociais digitais, âmbito que a extrema direita tem dominado”, avalia a doutora em Ciência Política, mestre em Comunicação e professora da UEM Fernanda Cavassana.
“Vários estudos da área da comunicação política mostram que, desde as eleições estadunidenses de 2016, o uso de dados, da comunicação personalizada por algoritmos nas redes sociais, tem sido explorada por candidatos da direita. As fake news se tornaram uma estratégia de campanha, de ação política. E isso está relacionado à forma, à roupagem do conteúdo que chega às pessoas nessas redes.”
Para a pesquisadora, um fator positivo para o governo é a campanha ter atingido um grande público em um ano pré-eleitoral. “Parece ter sido bem acionada no ano ímpar pré-eleição, para que force no último semestre uma postura do Congresso, mesmo que reativa, a favor do governo e de algumas promessas de campanha”, diz Cavassana. “Assim como o Legislativo jogou sufocando Lula mirando 2026, a campanha comunicacional de taxação de grandes fortunas aparece como uma aposta do governo para garantir enredo para a campanha de reeleição, que oficialmente começaria daqui a 12 meses.”
CAMPANHA PERMANENTE
Doutora em Ciência Política pela UFPR e professora da Universidade Federal do Pampa, Daniela Drummond avalia que as campanhas de hoje são permanentes. “Não existe mais só o período pré-eleitoral, a campanha hoje é permanente, o tempo todos os candidatos estão pensando em ganhar visibilidade e likes, viralizar e conseguir disseminar seus pontos de vista”, diz a cientista política.
Nesse ambiente, o governo conseguiu se colocar no jogo com a campanha de taxação dos mais riscos, mas o desafio será furar a bolha. “Essa questão da taxação dos mais ricos está circulando muito na rede e tem atingido mais o público, mas vale lembrar que as redes sociais têm uma bolha. Até nós, como pesquisadores, temos dificuldades para enxergar esse todo”, diz Daniela Drummond.
Um fator de desequilíbrio poderá ser a ausência de regulamentação das redes sociais, que é combatida pela oposição ao governo. O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, tem realizado encontros para alinhar sua forma de atuação nas redes até 2026. Em junho, um evento do PL reuniu representantes de big techs Google e Meta (Facebook, Instagram e WhatsApp) em Fortaleza. Nesta semana, a CCIA, entidade que reúne big techs norte-americanas, saudou a taxação de 50% aos produtos brasileiros nos Estados Unidos e a investigação do Brasil por “práticas comerciais desleais”.
O posicionamento das big techs pode influenciar na eleição de 2026, já que as plataformas tendem a “entregar” conteúdos mais alinhados à sua opção política. “Com a não regulamentação das redes sociais, tem muitas coisas que a gente não sabe como acontecem nos bastidores, o que a gente percebe é que a própria rede boicota alguns temas”, afirma Drummond. “Outra questão é a das notícias falsas ou enviesadas, que as redes às vezes continuam propagando. Isso continua sendo uma preocupação.”
POLITIZAÇÃO
Apesar da rapidez e da possibilidade de divulgação de informações falsas, as especialistas dizem ver nas redes sociais um ambiente que pode ser benéfico em termos de politização. “Pessoas despolitizadas que não acompanham pautas importantes podem se interessar mais pelos assuntos políticos ao ver conteúdos sobre. A comunicação digital por meio de memes, vídeos curtos e trends pode traduzir e simplificar as pautas políticas para o debate público”, diz Fernanda Cavassana.
“A percepção pública de apatia ao sistema político e partidário é muito anterior à comunicação digital e consequência de outros fatores. A comunicação mais próxima, simples e direta pode ser explorada como solução para isso”, avalia ela.
Para Daniela Drummond, o interesse das pessoas por esses temas já é uma forma de ação política. “Eu vejo a ação coletiva nas redes sociais como uma forma de movimentação, uma forma de participação política. Elas incentivam que as pessoas participem. O problema está nas notícias falsas, nas mensagens enviesadas, no boicote das próprias redes, pela ideologia dos donos dessas redes sociais. Mas a participação política on-line, seja por falas sérias, criticando, ou por memes, é válida e importante.”
Embate
Enquanto apoiadores do governo comemoram a nova forma de comunicação, a oposição diz que ela não tem base na realidade. “O PT e o governo já vinham há tempos trabalhando para melhorar a comunicação. Tínhamos avançado pouco, mas agora demos um passo gigante, tanto no formato quanto no conteúdo. Funcionou de forma excepcional, afirma o deputado federal Zeca Dirceu (PT-PR).
Já para Filipe Barros (PL-PR), que integra a oposição na Câmara dos Deputados, o PT mantém uma “milícia digital”, com “milhões em dinheiro público sendo injetados em publicidade”. “Denunciei em meados de 2024 que o PT já contratava milícias digitais para perseguir adversários políticos e defender Lula-Janja. Agora, ao apelar para a inteligência artificial, o lulopetismo mostra que não tem respaldo real – basta ver como seus protestos são um constante fracasso de público”.
Política externa na pauta - A taxação de produtos brasileiros tende a colocar a política internacional no debate eleitoral, diz João Alfredo Lopes Nyegray, mestre e doutor em Internacionalização e Estratégia e professor de Geopolítica da PUCPR. “A direita bolsonarista tende a instrumentalizar esse episódio como uma validação externa de sua narrativa. Quando Trump qualifica o julgamento de Bolsonaro como caça às bruxas, ele reverbera o discurso dos aliados do ex-presidente”, afirma o professor. “Já a esquerda e os setores progressistas vêm reagindo às medidas de Trump com ênfase na defesa da soberania nacional. Até então, política externa e relações internacionais não entravam na pauta dos debates, mas isso tende a mudar”.
Nyegray alerta, no entanto, que pode haver uma simplificação extrema de um tema mais complexo, que envolve comércio exterior, geopolítica e relações internacionais. “Muita gente acaba tomando um lado, achando que se trata simplesmente de ‘direita versus esquerda’, mas relações internacionais e geopolítica influem em uma quantidade muito ampla de outras áreas. Há muitas nuances que as pessoas acabam desconsiderando”.


