Guelmann pede demissão, mas Lerner não aceita
O secretário especial do governador Jaime Lerner (PFL), Gerson Guelmann, pediu demissão ontem, mas o governador não aceitou. O pedido de afastamento veio depois de duas semanas de crise no Palácio Iguaçu, deflagrada pelas denúncias do cabo da Polícia Militar (PM) Luiz Antonio Jordão. Ele foi afastado da Casa Militar e considerado peça-chave no escândalo das escutas ilegais na sede do governo do Paraná. Cabo Jordão nega envolvimento com grampos e afirma que Guelmann estaria ligado ao esquema de escutas clandestinas. O secretário do governador, por sua vez, também nega que esteja envolvido.
Na tarde de ontem, Guelmann entregou pessoalmente ao governador uma carta autorizando a quebra de seu sigilos bancário, fiscal e telefônico. Segundo informou fonte da Folha no Palácio Iguaçu, durante a conversa com Lerner, Guelmann disse que gostaria de entregar o cargo. Amigo pessoal do secretário, o governador teria dito que seu afastamento estaria fora de cogitação.
Guelmann disse que colocou o sigilo à disposição porque quer que a verdade prevaleça. Eu e minha família estamos sofrendo com isso, com a difamação. Quero mostrar que não tenho nada a ver com os grampos, declarou. O secretário não confirmou que tenha pedido afastamento.
O chefe da Casa Militar, coronel Luis Antônio Borges Vieira, também autorizou a quebra dos sigilos bancários, fiscal e telefônico. Segundo o cabo Jordão, o coronel Vieira saberia da existência dos grampos. O PM disse que havia uma sala no quarto andar do Palácio Iguaçu onde era possível fazer escutas telefônicas e que as chaves ficavam sob a responsabilidade da Casa Militar. Além de grampos em secretarias, segundo cabo Jordão, eram realizadas escutas clandestinas também em comitês eleitorais.
O governador assinou decreto ontem criando uma Comissão Especial de Investigação (CEI) para apurar as denúncias de escutas telefônicas clandestinas em repartições públicas.
A comissão especial veio como resposta à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Telefonia da Assembléia Legislativa. A comissão é presidida pelo deputado Tony Garcia (PPB) e composta por uma maioria oposicionista que pode obter dividendos políticos com o desgaste sofrido pelo Palácio Iguaçu por conta do caso. Os deputados vinham criticando o governo do Estado por tratar o assunto apenas como um caso policial. Os oposicionistas avaliam que as denúncias feitas pelo cabo Jordão abalam a estabilidade de Guelmann.
A comissão do governo será formada por sete integrantes: o secretário de Segurança Pública, José Tavares (presidente), o procurador-geral do Estado, Joel Coimbra, além de representantes do Ministério Público (MP), da Polícia Civil, da Polícia Militar, da Assembléia Legislativa e OAB/PR (Ordem dos Advogados do Brasil, seção Paraná).
A CEI começa a funcionar assim que os membros sejam indicados e terá prazo de 30 dias para apresentar suas conclusões ao governador. O secretário de Governo, José Cid Campêlo Filho, disse que o objetivo de Lerner é dar transparência às apurações. O governador jamais permitiria grampos em seu governo, afirmou Campêlo. O secretário garantiu que a comissão terá isenção nas apurações, porque é formada por diversas entidades e não só integrantes do primeiro escalão do governo.
Segundo o secretário chefe da Casa Civil, Alceni Guerra, o governador passou o feriado indignado, antes de tomar a decisão de instalar a CEI. O governador não aceita esse tipo de comportamento, disse Guerra.
O relator da CPI da Telefonia, Algaci Túlio (PTB), comemorou a decisão de Lerner. O governo finalmente reconheceu que podem existir irregularidades e parou de tratar o assunto como caso de polícia. Para o deputado, a CEI poderia trabalhar em conjunto com a CPI. Não queremos condenar ninguém antecipadamente, disse Túlio.





