Os ataques mútuos, os palavrões e as ameaças de agressão física registrados ontem na reunião do diretório nacional do PMDB mostram como será a disputa na convenção nacional do partido marcada para o dia 28. Na ocasião, o partido vai decidir se lança candidatura própria, como defende o presidente da legenda, Paes de Andrade, ou se apóia a reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, como quer a ala governista comandada pelo líder no Senado, Jáder Barbalho (PA).
Pelo que se viu ontem, há poucas chances de conciliação entre os dois lados. ‘‘Lamento muito que pessoas de posição destacada neste partido queiram cometer crimes’’, afirmou o ex-deputado Iranildo Pereira, do Ceará, aliado de Paes de Andrade, enquanto olhava para o líder do partido na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA). Os amigos de Paes de Andrade acusavam os governistas de desrespeitar determinações da Justiça, que suspendera a realização do encontro do diretório nacional. A reunião foi convocada especificamente para derrubar do cargo o presidente do PMDB.
Foi a quarta vez que o PMDB governista tentou tirar Paes de Andrade do cargo e, como das outras vezes, ele conseguiu frustrar a iniciativa. Ontem, o presidente conseguiu retirar 11 assinaturas de deputados que assinaram a convocação do diretório, desqualificando o quórum, além de apresentar uma liminar do juiz Bruno de Carvalho Setti, que o mantém na presidência até o dia 6 de setembro.
Em meio a um grande tumulto, Paes de Andrade manobrou do jeito que quis e depois encerrou a reunião. Os governistas praguejaram por umas duas horas, ameaçaram abrir outra reunião e destituir Paes de Andrade, mas no final prevaleceu o receio de que, desobedecendo a uma liminar da Justiça, pudessem ser processados e se tornar inelegíveis. Foi neste clima que os ministros da Justiça, Renan Calheiros, e dos Transportes, Eliseu Padilha, o ex-ministro Iris Rezende, cinco governadores do PMDB e os aliados enfrentaram a tropa de choque de Paes de Andrade, que ontem contou com Antônio Neto e a vereadora Lídia Correa, os dois do MR-8.
Lídia era a mais exaltada. ‘‘Baixinho, baba-ovo’’, gritava a vereadora, quando se referia ao líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima. Ao ocupar o microfone, Geddel cometeu escorregões no português e ouviu vaias. ‘‘Corrigem-me’’, disse, virando-se para a platéia. ‘‘Corrijam-me’’, consertou a platéia. Geddel se desconcertou.
Depois que Paes de Andrade deu a reunião por encerrada e se retirou, os governistas reuniram-se por quase duas horas. O presidente do partido tinha ido embora, mas deixado no plenário todos os seus amigos. Com ele, levou também os três microfones do auditório. Se algum governista quisesse seguir com a reunião, teria de gritar. Cada uma das cadeiras da mesa foi ocupada por um aliado de Paes. Na sequência: ex-deputado Marco Antônio Campanella, Antônio Neto, deputado Noel de Oliveira (RJ), Iranildo Pereira e a vereadora Lídia Correa.
Do lado de baixo, o presidente da Câmara, Michel Temer, Jáder Barbalho, Geddel Vieira Lima, Íris Rezende, os ministros Renan Calheiros e Eliseu Padilha, governadores e pelo menos umas três dezenas de deputados não tiveram o que fazer. E também se retiraram do plenário.

mockup