Firme na postura de não oferecer índice de reposição inflacionária ao funcionalismo municipal, o prefeito Nedson Micheleti (PT) endureceu ontem o discurso contra os grevistas: não só vai descontar os 39 dias parados, em dois contracheques, como pode também não efetuar o pagamento do 13º salário, até o fim de dezembro, a 100% dos funcionários da administração.
A possibilidade foi levantada ontem pelo chefe do Executivo em entrevista concedida à Folha. Durante cerca de uma hora, o prefeito negou a possibilidade de abrir qualquer negociação salarial este ano, afastou a chance de índices em 2007, mas avisou que, se a paralisação perdurar, a receita será prejudicada e o 13º salário ficará comprometido.
''Os grevistas estão exercendo um direito deles, mas eu tenho a responsabilidade de efetuar os descontos de quem não trabalhou a fim de cuidar bem do dinheiro público'', disse o prefeito, para completar: ''E como a arrecadação da dívida ativa está prejudicada devido ao fechameno do prédio da administração, pode ser que até o fim de dezembro não tenhamos no caixa a receita prevista - ou seja, os 15% de servidores em greve prejudicariam 100% dos servidores''.
Desde o início da paralisação, em 8 de agosto, Prefeitura e o sindicato que representa a categoria, o Sindserv, vêm rebatendo os números da adesão. Entretanto, há concordância em um ponto: as áreas mais afetadas são setores da administração, da saúde e da Secretaria Municipal de Obras - sobretudo a operação tapa-buracos.
Nedson é enfático e cita a Lei de Responsabildade Fiscal (LRF) para afastar a possibilidade de incremento na folha. Nesse caso, a lembrança é pelo índice de 54% de limite estabelecido pela LRF a gastos com pessoal, percentual que o prefeito afirma estar atualmente nesse número. Membros do alto-escalão, como o controlador-geral Sinival Pitaguari e os secretários Wilson Sella (Fazenda) e Jacks Dias (Gestão Pública) já garantiram que o valor já ultrapassou 57%.
''Esse percentual é fechado em 31 de dezembro; seria especulação antecipar algo'', afirmou. A resposta complementou outra, sobre a possibilidade de cortes caso a administração ultrapasse os 54% - exigência feita pela mesma LRF. ''Isso (extrapolação) não vai acontecer, vamos cumprir o limite.'' Sobre medidas que pudessem diminuir o comprometimento ainda este ano, o prefeito novamente descartou a hipótese. ''Não há necessidade de cortes, pois não temos projeto algum de número de servidores em áreas não essenciais.''
Questionado sobre ações específicas e que renderam reajustes, promoções ou abonos a setores como a Procuradoria, Assistência Social, Fazenda e departamento de licitação, o prefeito não acredita que isso gere impacto significativo a ponto de comprometer a reposição geral. ''Essa é uma política administrativa pessoal minha. Estou implementando uma valorização das carreiras estratégicas da gestão'', argumentou.
Dizendo-se surpreso com uma nova greve em pouco mais de um ano - a de 2005 durou 31 dias - Nedson, que é ex-sindicalista, preferiu não julgar se é meritória ou não a reivindicação salarial. Voltou a apontar motivação política por parte dos diretores do sindicato, mas diz não acreditar que haja atuação de grupos políticos rivais ao PT em meio ao movimento.
Como serão os dois anos e três meses que restam desse segundo mandato? ''Temos obras em realização e por fazer voltadas ao desenvolvimento econômico, infra-estrutura viária e área ambiental; são os principais eixos. Há o Cefet, o Parque Tecnológico, e com a representação política que temos em Brasília, isso não vai parar.''

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