Belo Horizonte - Gravações telefônicas realizadas pelo Ministério Público (MP) de Minas Gerais, que vieram a público ontem, revelam ligações suspeitas e suposto tráfico de influência entre o delegado Marco Túlio Fadel Andrade, foragido da Justiça e acusado de vários crimes, com políticos mineiros e integrantes do Poder Judiciário no Estado. Ex-delegado de Igarapé, na região metropolitana de Belo Horizonte, Andrade é acusado de praticar tortura, concussão, coação e ameaça de agressões físicas a testemunhas, advogados, promotores e juízas.
Parte das gravações foi feita enquanto ele esteve preso no Departamento Estadual de Operações Especiais (Deoesp), a pedido do MPE, de 9 de outubro a 15 de fevereiro. Entre as autoridades flagradas em conversas com Andrade, estão o juiz-corregedor Wanderley Salgado de Paiva, diretor do Fórum Lafayette, da capital mineira, deputados estaduais de Minas Gerais, a presidente estadual do PT, deputada Maria do Carmo Lara, além de dirigentes do partido em Igarapé.
O grampo telefônico, autorizado pela Justiça, foi realizado entre 3 e 31 de outubro. São mais de 50 horas de gravações reunidas em 29 fitas cassetes que foram enviadas à Superintendência da Polícia Federal (PF) no Estado. Em fevereiro, o Instituto de Criminalística (IC) da PF concluiu um laudo (0160/2004-SR) com a descrição do conteúdo das fitas. No laudo de degravação, a PF identifica evidências da prática de outros crimes, como tráfico de drogas e armas.
As conversas gravadas de um telefone celular revelam também uma série de regalias que o delegado possuía na cadeia e que ele usou uma rede apoio para intimidar autoridades. Ele fez convites a delegados e prefeitos da região metropolitana para participar de um churrascos na prisão. As gravações demonstram também um estreito relacionamento entre o delegado e jornalistas.
O delegado foi solto a partir de um mandado assinado pela juíza Maria José Starling, titular de Esmeraldas, na região metropolitana. O mandado foi assinado às 23h48, num domingo, durante o plantão da juíza. A ordem de soltura, porém, chegou ao conhecimento da Comarca de Igarapé somente na quinta-feira seguinte. A decisão foi anulada cerca de 24 horas depois e, até o fim da tarde de ontem, Andrade continuava foragido.
O deputado Durval Ângelo (PT), presidente da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa de Minas Gerais, que teve acesso às fitas e pediu uma investigação da PF, disse ontem que pedirá à direção estadual da legenda a intervenção no Diretório de Igarapé e a expulsão do presidente municipal da sigla, Marco Túlio Chiabi, e da secretária da agremiação na cidade, Vera Martins. ''Se o povo já ficou bravo de ter o Waldomiro Diniz como amigo, imagina ter Marco Túlio Fadel como parceiro'', ironiza o deputado, que é alvo de ameaças nas conversas gravadas.
A presidente estadual do PT confirmou que ligou para o delegado. Ela alegou que conhece Andrade desde o tempo que ele era delegado em Betim, na Grande Belo Horizonte, onde Maria do Carmo foi prefeita. Na descrição da PF, Maria do Carmo liga para Andrade, que ''pede o voto de confiança dela''.

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