Curitiba - Fitas com conversas telefônicas entre o tenente-coronel Valdir Copetti Neves, oficial da Polícia Militar (PM) preso por suposta formação de milícias armadas no campo no último dia 5 de abril, revelam que o grupo que atuava na região dos Campos Gerais tinha efetivamente pessoas infiltradas dentro de acampamentos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) com o intuito de intimidar e evitar que as invasões se proliferassem. Numa das conversas, divulgada com exclusividade no telejornal da TV Paranaense (afiliada da Rede Globo), Neves garante que tem gente dentro do acampamento do MST numa propriedade que pertencia à Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).
Na gravação atribuída ao militar, ele fala que queria infiltrar ainda mais pessoas dentro do acampamento. Do outro lado da linha telefônica estava o policial militar na reserva José Valdomiro Maciel, também preso durante a ''Operação Março Branco'', da Polícia Federal (PF). Neves é duro em alguns trechos da conversa divulgada. O tom era de ameaça e espionagem. O conteúdo das gravações faz parte das escutas telefônicas feitas pela força-tarefa que investigou o caso, composta por policiais civis, militares e federais. As escutas foram encaminhadas para a Justiça Federal de Ponta Grossa, que as remeteu para a Polícia Federal que está investigando o caso.
O conteúdo das gravações está sob segredo de Justiça e não poderia ter sido divulgadas à imprensa. As fitas serviram como base para que fosse desencadeada a Operação Março Branco, que cumpriu oito mandados de prisão e 13 mandados de busca e apreensão em Curitiba, Ponta Grossa e Cascavel. Além de Neves e Maciel, foram presos os policiais da reserva Ricardo José Derbes, João Della Torres Neto e Nereu Paschoal Moreira, o ex-policial militar excluído Adair João Sbardella, os sem-terra (possivelmente infiltrados) Silvana Araújo de Almeida e Carlos Ney Ferreira. Com o grupo, foram apreendidas 16 armas de fogo (entre revólveres, pistolas, escopetas, carabinas) e munições importadas. Além de recibos de fazendeiros, fotografias, binóculos para vigilância no campo, equipamentos de rádio-transmissão e três carros de patrulhamento rural.
O advogado criminalista Cláudio Dalledone Júnior, que defende Neves, foi procurado ontem pela reportagem e não foi encontrado. Neves está preso atualmente no quartel do Corpo de Bombeiros, em Curitiba. A Polícia Federal foi procurada ontem. A assessoria de imprensa informou que até segunda-feira não irá se pronunciar sobre o vazamento das fitas com conversas entre Neves e os policiais contratados para atuar no campo. A Secretaria de Segurança Pública negou que tenha havido vazamento interno das gravações, que foram repassadas há tempos para a Justiça Federal.
A Justiça Federal em Ponta Grossa informou que não autorizou a divulgação das gravações e ressaltou que a Polícia Federal está investigando a origem do material que foi divulgado indevidamente.

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