Pressionado pelo agravamento da crise política com a divulgação das fitas contendo conversas sobre a privatização do Sistema Telebrás, o presidente Fermando Henrique Cardoso decidiu aceitar o pedido de demissão do ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, do seu irmão, secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior, José Roberto Mendonça de Barros e do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), André Lara Resende. O vice-presidente do BNDES, José Pio Borges, também deixou o cargo.
Arquivo FolhaSangue
José Roberto Mendonça de Barros: junto com o irmãoEm nota oficial divulgada ontem de manhã, Fernando Henrique ‘‘lamenta’’ que teve de ceder à decisão de seus colaboradores, expressou sua ‘‘inconformidade’’ com o desdobramentro da divulgação da fitas obtidas por meio de ‘‘escuta criminosa’’ e defendeu o ‘‘comportamento absolutamente idôneo de seus auxiliares’’.
Luiz Carlos, José Roberto e André estiveram reunidos com Fernando Henrique no Palácio da Alvorada, por quase cinco horas, domingo à noite. A conversa foi longa, de acordo com interlocutores de FHC, porque os três demissionários tiveram a preocupação de recompor passo a passo toda a história contada nas fitas do grampo do BNDES. A preocupação deles, na conversa com o presidente, foi a de eliminar qualquer interpretação de que a atuação na privatização da Telebrás pudesse ser prejudicial ao governo ou que estivessem atuando em proveito próprio no leilão das teles.
Arquivo FolhaExtensão
José Pio Borges: vice também sabia das conversasA reunião terminou perto da meia-noite e, após a saída dos irmãos Mendonça de Barros e de Lara Resende, o presidente decidiu redigir, de próprio punho, uma nota oficial que seria distribuída na manhã de ontem, pouco depois das 7 horas da manhã. Fernando Henrique acabou atendendo aos apelos dos seus auxiliares, por entender que a situação era insustentável. O presidente reconheceu ainda que a pressão dos familiares era muito grande e que todos estavam se sentindo pessoalmente atingidos com as denúncias.
No início do processo, o presidente tinha esperança que o assunto não se prolongasse, porque entendia que eles não agiram de má-fé, ao contrário, que estavam procurando qualidade de serviço para a população e mais recursos para o governo. Só que o assunto ganhou destaque, atrapalhando os planos do governo de votar o pacote fiscal no Congresso, já que muitas medidas, se não forem aprovadas este ano, não poderão vigorar em 1999.
Para o presidente, todos esses acontecimentos deixaram o governo muito ‘‘vulnerável’’ mas ele rechaça a tese de que o Palácio do Planalto está sendo ‘‘movido a denúncias’’. ‘‘Existe um projeto nacional, uma reforma fiscal que precisa ser aprovada imediatamente’’, insistiu um assessor presidencial, ao explicar que foi justamente para atender a esse interesse, que se optou pelo caminho de aceitar as demissões e apostar na votação das propostas. O presidente acredita que as votações prosseguirão.
Na longa viagem para Roraima, ontem (ver na página seguinte) o presidente aproveitou para pensar na substituição dos seus auxiliares. Duas hipóteses estavam sendo levantadas por assessores palacianos. A primeira delas, seria retardar a substituição dos três, imaginando-se que, só o fato de se comunicar a saída deles serviria para baixar a poeira e permitir as votações. Assim, todos permaneceriam em seus postos, até o presidente definir os substitutos definitivos.
Esta hipótese, no entanto, o próprio presidente sabe que poderá enfrentar resistência. A outra idéia é substituir temporariamente os Mendonça de Barros e Lara Resende, até o que presidente promova a reforma ministerial para o seu segundo mandato. A data dessas mudanças dependerá também dos desdobramentos da saída deles no Congresso.
A íntegra da nota é a seguinte: ‘‘Ontem (anteontem) à noite, em encontro com o presidente da República, no Palácio da Alvorada, o ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros, o presidente do BNDES, André Lara Resende, o secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior, José Roberto Mendonça de Barros, reafirmaram seus pedidos de demissão. O presidente da República lamenta informar que apesar de seus argumentos de apelos, teve de ceder à decidão de seus colaboradores. Nesta oportunidade, o presidente da República reafirma declarações anteriores sobre o comportamento absolutamente idôneo de seus auxiliares e expressa sua inconformidade pelos desdobramentos ocorridos a partir da divulgação de conversas telefônicas obtidas por meio de escuta criminosa.’’Tânia Monteiro
Arquivo FolhaInterlocutorAndré Lara Resende: preferências descobertasAgência Estado

mockup