Brasília -
Mesmo com duas traições na base aliada, o governo conseguiu eleger ontem, por 17 a 15, o presidente da CPI dos Correios e indicar seu relator. Ao dominar os dois principais cargos da comissão, o governo vai controlar a condução das investigações. A presidência ficou com o líder do PT, senador Delcídio Amaral (MS), que derrotou o senador pefelista César Borges (BA). O relator escolhido foi o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), ligado ao ministro José Dirceu (Casa Civil). A vice-presidência também ficou com um governista, o senador Maguito Vilela (PMDB-GO).
Os trabalhos da CPI começam na próxima terça-feira com o depoimento do ex-chefe do Departamento de Contratação e Administração dos Correios Maurício Marinho. Ele foi o pivô do escândalo de corrupção na estatal ao ser gravado negociando propina.
Delcídio foi eleito presidente da CPI um dia após desistir da função, alegando não querer dirigir uma comissão parlamentar de inquérito ''chapa-branca''. Ele recuou da decisão ontem após receber um pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nenhum governista consultado se dispôs a substituir Delcídio na função.
Se tivesse havido empate na votação, o candidato da oposição, senador César Borges (PFL-BA), assumiria a função por ser mais idoso. Integrantes do PFL e do PSDB creditaram as duas traições da base aliada ao fato de parlamentares que estão sendo acusados de corrupção estarem se sentindo sem o respaldo do Planalto.
O presidente do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ), tem denunciado um esquema de pagamento de mesada por parte do PT a deputados do PP e do PL para que eles se mantivessem fiéis ao governo. ''O que há aqui é uma interferência indevida do Executivo no Parlamento. É o presidente da República dizendo para sua base que ela não deve ter pudor em ter a presidência e a relatoria da comissão'', disse o candidato da oposição, César Borges.
Mesmo tendo se posicionado contra o acúmulo da presidência e da relatoria pelo governo, o líder do PT refutou, depois de eleito, a tese de manipulação na CPI. ''Nosso compromisso é com a lisura, isenção, equilíbrio e serenidade na apuração dos fatos, doa a quem doer'', afirmou Delcídio. Depois de eleito, ele indicou para a relatoria da comissão parlamentar de inquérito o deputado Osmar Serraglio. Dessa forma, não foi respeitado o direito do bloco PSDB-PFL de ocupar um dos postos-chave da CPI, por ser a maior bancada no Senado.
''Exercerei a imparcialidade no limite das minhas possibilidades e energia'', disse Serraglio ao ser empossado. ''Devemos dizer não ao abafa, ao cisma. Esse vai ser o mote da comissão'', afirmou. Já há 84 requerimentos de convocação e de quebras de sigilo fiscal, bancário e telefônico na CPI. O relator afirmou ser a favor da quebra de sigilos do tesoureiro do PT, Delúbio Soares, e do presidente do PTB, Roberto Jefferson.
O roteiro de trabalho da CPI, a princípio, é ouvir os diretores dos Correios após o depoimento de Maurício Marinho. Só depois seria convocado o deputado Roberto Jefferson, principal fonte de denúncias de supostos esquemas de corrupção no governo. Se depender dos governistas, no entanto, ele vai depor na condição de réu, ao contrário do que ocorreu anteontem no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, quando distribuiu acusações.

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