Governo usa PF para se antecipar a CPI
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sábado, 04 de junho de 2005
Vasconcelo Quadros<br> Agência Estado 
Brasília - Pressionado pelo acúmulo de denúncias de corrupção, o governo vai intensificar o combate à roubalheira em órgãos públicos para tentar se antecipar aos trabalhos da CPI dos Correios. Além dessa estatal e do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), ambos apontados como fonte de recursos que alimentavam caixinhas de políticos, outro setor da administração federal está na mira: nada menos que a Receita Federal.
O Ministério Público já reuniu indícios de que um grandioso esquema de corrupção opera no órgão e o governo não pretende deixar por menos, confirma o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. ''Se tiver de investigar a Receita, vamos investigar'', diz Bastos. ''A orientação do presidente Lula é tocar em frente, com o máximo de rigor, sem olhar para partido político. As investigações vão até onde tiverem de ir. O PTB já apareceu e acho que é interesse dele também que se apure. Não vamos parar por aí.''
É um sintoma de que o governo está preocupado com o desgaste de imagem que os casos de corrupção podem produzir. Bastos admite que a onda de denúncias na área política influenciou as posições do governo, mas afirma que o combate à corrupção já vinha sendo estruturado havia muito tempo:''Desde o primeiro dia de governo tenho carta branca do presidente Lula para agir sem interferência política. A Polícia Federal não persegue nem protege ninguém''.
Um caso citado por Bastos é o ex-gerente executivo do Ibama em Cuiabá Hugo José Scheuer Werle, preso na quinta-feira durante a operação que desmantelou a maior quadrilha envolvida na derrubada ilegal de florestas. ''Hugo é do PT. Era um quadro razoavelmente qualificado dentro do partido'', lembra o ministro, antes de frisar que os policiais federais nem sequer deram bola para os apelos do petista. Membro da executiva estadual do PT em Mato Grosso, Werle quando percebeu que seria detido pediu para ser levado com discrição. O delegado Tardelli Boaventura Cerqueira determinou, no entanto, que fosse algemado e chegasse à prisão pela porta da frente.
A ofensiva do governo está amparada, segundo o ministro, numa estratégia que conta com a integração de diversos órgãos federais de repressão. ''Não há obstáculo político'', sustenta o ministro, que aposta numa assepsia das áreas infectadas por corrupção pública a partir das investigações dos Correios e do IRB.
O organograma dos órgãos de repressão é encabeçado pela Polícia Federal, cujas ações costumam chamar mais a atenção. Mas há também as atividades de organismos como o Banco Central, a Receita Federal, a Controladoria-Geral da União, a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e o Departamento de Recuperação de Ativos e Recuperação Jurídica Internacional - setor do Ministério da Justiça especializado na luta contra a lavagem de dinheiro e apto a repatriar dinheiro enviado para o exterior.
O principal foco de corrupção na estrutura federal, diz Bastos, já está detectado: são as chamadas comissões de licitação, que decidem quais empresas podem vender produtos e serviços ao governo. ''Já tiramos uma grande lição. Deve haver rotatividade nas comissões'', sugere o ministro, que defende uma permanência de no máximo seis meses para cada membro, em qualquer setor do governo federal. O ministro acha que a redução dos índices de corrupção deve contar com a integração dos órgãos federais e a ''criação de uma cultura de combate aos criminosos que se organizam para praticar corrupção''.
Principal aliado do ministro, o diretor-geral da Polícia Federal, Paulo Lacerda, diz que a nova estratégia é usar inteligência e paciência para apanhar toda a organização criminosa e não apenas uma ponta do esquema. ''Quem estiver roubando que continue roubando'', diz Lacerda. A sensação de impunidade, segundo ele, deve ser usada para que a polícia reúna as provas que permitam o desmantelamento do grupo.


