O secretário-chefe da Casa Civil, Alceni Guerra, admitiu ontem que as negociações entre o Palácio Iguaçu e os deputados governistas, para recompor a base de sustentação na Assembléia Legislativa, envolveram cargos e liberação de recursos. Mas negou que tenha havido ‘‘compra de votos’’ para garantir a privatização da Companhia Paranaense de Energia (Copel). ‘‘Isso não existe. É tão descabido que nem vou comentar.’’ O corregedor da Assembléia, Caíto Quintana (PMDB), disse que vai investigar as denúncias feitas pela imprensa nacional de que os deputados paranaenses estariam recebendo recursos para votar a favor da venda da estatal de energia.
Alceni Guerra reconheceu que a venda da Copel está trazendo desgaste à imagem do governador Jaime Lerner (PFL). ‘‘O governador está se submetendo à impopularidade, mas a venda é necessária para sanear o Paraná, senão inviabiliza o governo dele e também dos sucessores’’, afirmou, referindo-se às dificuldades financeiras do Estado. Segundo o secretário, as inúmeras reuniões com os deputados serviram para ‘‘lavar roupa suja’’ e o governo se comprometeu a pagar dívidas atrasadas junto aos municípios, recompor a capacidade de investimento do Estado e dar ‘‘maior participação’’ aos deputados – item que inclui o direito dos parlamentares indicarem nomes para cargos públicos.
O governo prometeu destinar mensalmente cerca de R$ 4 milhões para a conclusão de obras inacabadas no interior, além de investir, no próximo ano, R$ 200 milhões nos municípios. Só que para o Estado recuperar sua capacidade de investimento, alega o secretário, é necessário que antes seja capitalizado a Paraná Previdência, o fundo de pensão dos servidores estaduais. E o fundo depende dos recursos que serão obtidos com a venda da Copel. O discurso de Alceni Guerra agora está afinado com o do presidente da Copel e secretário da Fazenda, Ingo Hubert. O governo evita usar a palavra crise, e define a situação do orçamento como ‘‘tensa’’. Segundo Hubert, o Paraná consegue pagar suas contas. A dificuldade está na necessidade de fazer novos investimentos.
‘‘Além disso, se deixar para vender a Copel mais tarde, a empresa não vai valer o que vale hoje’’, avaliou Alceni Guerra. O valor patrimonial da companhia de energia supera a marca dos R$ 4,5 bilhões. Apesar do governo usar de meias palavras para tratar das finanças do Estado, a bancada de oposição sustenta que a situação é muito mais negra do que está sendo pintada. Enquanto a Secretaria da Fazenda divulga dívida de R$ 7,5 bilhões, os oposicionistas garantem que o número pode ser o dobro.
O terceiro ponto do acordo prevê maior participação dos deputados, que podem inclusive fazer indicações para cargos. Pelos corredores da Assembléia, os deputados sempre deixaram claro que não estavam satisfeitos com o tratamento que vinham recebendo do governo Jaime Lerner. ‘‘Eles tinham mágoa, falaram que estavam sendo deixados de lado. Querem levar convênios ao interior e ser convidados para eventos oficiais’’, comentou Guerra. O secretário disse que o governador se comprometeu também a fazer um enxugamento da máquina, atendendo a exigências dos deputados. Segundo o chefe da Casa Civil, os parlamentares concordaram inclusive em abrir mão de cargos que podem vir a ser extintos. Alceni Guerra afirmou que a retirada dos três projetos que revogam a autorização do Estado para vender a Copel não vai afetar as promessas feitas aos deputados. ‘‘Todos os pontos serão atendidos’’, prometeu.

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