O governo do Estado está se mobilizando para tentar ofuscar o megaprotesto contra a privatização da Copel, programado para a próxima segunda-feira em Curitiba. A coordenação do Fórum Popular Contra a Venda da Copel denunciou ontem que donos de empresas de ônibus estão sendo pressionados pela Secretaria de Transportes para cancelar viagens agendadas com partidos de oposição. Das 10 mil pessoas esperadas no ato, metade deverá vir do interior.
‘‘Estamos tentando contornar contratando o frete de outras empresas. É uma coisa extremamente perversa, autoritária’’, protestou o coordenador do Fórum, Nelton Friedrich. O ‘‘caso mais explícito’’, segundo ele, foi o de uma empresa de Telêmaco Borba que iria ceder dois ônibus, mas na quinta-feira voltou atrás, alegando ter recebido um telefonema da Secretaria dos Transportes com ameaças de retaliação. Muitas das empresas procuradas pelo Fórum teriam concessões intermunicipais, que são controladas pelo Estado.
O diretor-geral da secretaria, Wilson Justus, disse que não tinha conhecimento da denúncia. ‘‘Desconheço essa pressão e a denúncia. O controle das empresas nem é feito pela Secretaria dos Transportes, mas pelo Departamento Estadual de Estradas de Rodagem (DER)’’, avisou Justus, primo do secretário de Transportes, Nelson Justus, que estava viajando ontem, segundo ele. O diretor declarou ainda que ‘‘o direito de subir num ônibus é livre’’, mas alertou que ‘‘existem regras para o fretamento’’.
A coordenação do Fórum vai entregar na segunda-feira o primeiro projeto de iniciativa popular do Estado na Assembléia Legislativa para suspender a autorização que possibilita a venda da Copel. Os 54 deputados também serão convidados para assinar o projeto, que já tem 95 mil assinaturas de eleitores de 200 cidades do Estado. Hoje e amanhã, uma equipe de advogados que integra o movimento ficará de prontidão para contestar eventuais ações judiciais que possam impedir a realização do protesto.
Um dos temores é de que o governo consiga na Justiça um ‘‘interdito proibitório’’ (o mesmo recurso que impediu os sem-terra de entrar em Curitiba no ano passado) para manter os manifestantes afastados do Centro Cívico, sede dos três poderes do Estado. ‘‘Não há nenhuma barreira política ou jurídica que possa ser usada para intervir. Se isso acontecer, será uma violência, uma arbitrariedade contra o direito de ir e vir’’, afirmou Friedrich. O secretário de governo, José Cid Campêlo Filho, não foi localizado pela reportagem para comentar a acusação.
O presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Crea), Luiz Antônio Rossafa, não acredita que o governo vá radicalizar. ‘‘Acho que é um blefe. Constitucionalmente não tem como o governo intervir. é um ato pacífico, de cidadania. Qualquer coisa que acontecer contra a marcha só vai acirrar a vontade do povo de discutir a Copel’’, analisou. Na manhã de ontem, os coordenadores do Fórum receberam apoio no plenarinho da Assembléia de representantes das dez prefeituras governadas pelo PT no Estado. Friedrich recebeu o manifesto ‘‘Ao povo do Paraná: não à privatização da Copel’’ do prefeito de Maringá, José Cláudio.

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