Cabrobó, PE - O bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, 59, anunciou ontem, em Cabrobó (600 km de Recife, PE), o fim da sua greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco, iniciada às 12h do dia 26 de setembro. O acordo fechado com o governo, entretanto, gerou dúvidas logo após o anúncio. O religioso afirmou que retomará o jejum caso considere que a negociação está sendo descumprida. Para Cappio, o governo se comprometeu a suspender o início das obras de transposição durante o período em que o projeto voltar a ser discutido no país.
O interlocutor do governo, o ministro das Relações Institucionais, Jaques Wagner, negou. ''Você ouviu alguém falar em suspensão ou adiamento?'', respondeu aos jornalistas, ao ser questionado sobre o assunto. O bispo, que não ouviu a declaração do ministro, reagiu depois: ''Se ele falou isso, ele deu uma declaração mentirosa, porque foi isso que nós tratamos'', afirmou. ''Se ele disse isso, ele não está falando a verdade. Não quero tomar nenhuma decisão precipitada, mas não foi isso que nós conversamos durante cinco horas.''
Segundo Cappio, o ministro garantiu que o governo não iniciaria as obras e que não haveria um tempo determinado para a conclusão das discussões sobre a transposição e outros projetos de convivência com a seca. ''Se o acordo não for cumprido, volto para Cabrobó'', declarou.
Wagner deixou o local logo após o anúncio do fim da greve de fome e não ficou sabendo das declarações do bispo. Os dois começaram a reunião às 12h15, na capela onde o religioso cumpria o jejum, e só concluíram as negociações às 17h30. Na carta enviada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao bispo, entregue por Wagner, o governo federal oferece o ''prolongamento do debate'' sobre o processo de transposição, a intensificação das obras de revitalização do rio e um convite para Cappio ser recebido no Palácio do Planalto ''com o objetivo de dialogar sobre esse tema''.
Cerca de 200 pessoas aguardavam o resultado do encontro do lado de fora. Alguns fiéis rezavam e cantavam hinos religiosos. Índios das tribos trucá e tumbalalá, vestidos com trajes típicos, dançavam próximos à capela. A chegada do ministro foi tumultuada. Os índios cercaram Wagner e dançaram ao seu redor. Imóvel no meio da roda, ele não sabia o que fazer. Perguntou aos jornalistas: ''Será que eu posso sair?''. Sem resposta, preferiu aguardar o fim da cerimônia.
A portas fechadas, ele leu a carta com a proposta do governo, de ampliar os debates sobre a transposição. Em seguida, disse que o governo se esforçaria para que o Congresso aprovasse a proposta de emenda constitucional que prevê o investimento, nos próximos 20 anos, de R$ 300 milhões por ano na revitalização e saneamento do rio São Francisco. O ministro deixou a capela e aguardou duas horas na casa de um pequeno agricultor. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou para saber como andavam as negociações. Wagner explicou o impasse e, chamado por Cappio, retornou à capela. Durante a segunda parte da reunião, o presidente voltou a ligar para o ministro e, por telefone, aparou o que pareciam ser as últimas arestas do acordo.
Após anunciar o fim da greve de fome, o bispo pediu que as mobilizações em favor da revitalização do rio São Francisco continuassem. ''Não estamos terminando, estamos começando'', afirmou. ''Se esse debate não caminhar agora, voltaremos à estaca zero'', declarou. Ele foi levado ao hospital municipal de Cabrobó, onde seria submetido a exame médico e receberia soro antes de se alimentar.
A greve de fome do religioso durou dez dias e seis horas. Nesse período, ele perdeu quatro quilos. Segundo os médicos que o assistiam, ele manteve suas funções vitais inalteradas. Há dois dias, havia começado a se queixar de dores no corpo e falta de ar. A capela escolhida por ele para o jejum tornou-se ponto de romaria. Na terça-feira, Cappio comemorou seu aniversário e o Dia de São Francisco com uma missa na caatinga para 2.500 pessoas.

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