Governo Ratinho Jr. completa seis primeiros meses
Primeiro semestre se encerra em meio a greve dos servidores e recebe críticas por falta de diálogo com os trabalhadores
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 08 de julho de 2019
Primeiro semestre se encerra em meio a greve dos servidores e recebe críticas por falta de diálogo com os trabalhadores
Pedro Moraes - Grupo Folha 

O primeiro semestre do mandato de Carlos Massa Ratinho Junior (PSD) como governador do Paraná se encerrou com um problema de complexa solução. A greve dos servidores conflagrou a primeira crise que o chefe do Executivo precisa se confrontar e, por enquanto, um acordo não parece figurar no horizonte. As medidas de ajuste fiscal do governo anterior, de Beto Richa (PSDB), impõem aos trabalhadores um aperto dos vencimentos, que não têm a reposição da inflação desde 2015.
Eleito com um discurso que prometia corte de privilégios, redução dos gastos da máquina pública e crescimento econômico, Ratinho Jr. deu os primeiros passos em alguns projetos como Escola Segura e rascunho de obras estruturantes no Estado. Além disso, bancou a decisão de vetar aposentadorias de futuros ex-governadores. “O governo teve vários acertos. A economia nas contas, o trabalho de planejamento, mas precisamos entender que o cenário econômico nacional dita o ritmo do País. A crise atrapalha muito”, afirma o deputado estadual Tercilio Turini (Cidadania), que é parte da base do governo.
Para a oposição, os primeiros passos do governador apontam uma continuidade de gestões anteriores. Para o deputado Requião Filho (MDB), há uma mensagem dita que não é cumprida na prática. “A impressão é que o governo tem oito anos e seis meses. É uma continuidade do Beto Richa. Assim como ele, Ratinho afirma que o Paraná é maravilhoso, mas, na hora de conversar com o servidor, diz que não pode fazer muita coisa. Que não há dinheiro”, questiona.
O deputado esteve à frente das discussões sobre a LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2020, que foi aprovada na quarta-feira (3), sem o corte de verbas proposto pelo governo, mantendo os repasses para os poderes Legislativo e Judiciário. “A verdade é que eles ainda não descobriram onde acendem a luz dos gabinetes. Há uma preocupação grande com a mídia, mas até agora um plano efetivo não foi apresentado”, dispara.
Para os líderes de diferentes setores da economia, ainda é preciso ter paciência com o governo. Há uma compreensão sobre a dificuldade econômica e a necessidade de um período para que a atual equipe consiga conhecer a realidade da máquina pública. Esta é a opinião de Fernando Moraes, presidente da Acil (Associação Comercial e Industrial de Londrina), que tem um olhar otimista sobre a atual gestão.
“Acredito que esses seis meses tenham sido um grande aprendizado, mas acredito na boa vontade do governador de melhorar a situação. Especificamente para Londrina, as primeiras visitas foram positivas. Ele esteve atento às questões apresentadas pelos setores”, opinou.
O Sinduscon (Sindicato da Indústria da Construção Civil) Norte foi convidado pela FOLHA a opinar sobre o governo, mas não pôde atender ao pedido de entrevista.
Durante a transferência da capital do Estado de Curitiba para Londrina no período da Expolondrina, Ratinho Jr. confirmou a liberação para a licitação de dois viadutos na BR-369, além de incluir os projetos executivos do viaduto da PUC e o da duplicação da PR-445, no trecho até o município de Mauá da Serra, no pacote de projetos para obras de infraestrutura do Paraná.
A presença do governador na cidade durante o evento da SRP (Sociedade Rural do Paraná) foi vista com bons olhos. “No princípio, o diálogo entre nós e o governo parecia travado, mas a Expo trouxe uma boa aproximação. Hoje temos uma linha de conversa muito interessante, mas tenho a impressão que o governo precisa começar a mostrar resultados, senão vai ser igual aos jogos de futebol, em que a torcida começa a vaiar no meio do jogo”, opina Antonio Sampaio, presidente da SRP.
A entidade aguarda um posicionamento sobre o futuro do Iapar (Instituto Agronômico do Paraná). “Não somos contra mudanças na gestão, o que não pode deixar de existir é a pesquisa pública. Não importa quantos diretores existam. Nossa preocupação é sobre a finalidade do trabalho”, afirma.
GREVE
Principal desafio da administração Ratinho Jr. até o momento, a gestão da greve dos servidores é uma verdadeira prova de fogo. Desde abril, o governo sinalizava que não pretendia mexer nos rendimentos dos funcionários do Estado, mas um protesto no dia 29 daquele mês acabou provocando a formação de uma comissão para tratar do tema. Apesar do movimento, a proposta de reajuste geral de 5,09%, parcelado até 2022, não chega nem perto de criar um acordo com os trabalhadores.
“Mudou o governador e as dificuldades sãos as mesmas. Ele havia afirmado que haveria uma mesa permanente de discussões, mas na prática pouco avançou. A sensação é de uma forte frustração”, afirma Marlei Fernandes, coordenadora do FES (Fórum das Entidades Sindicais do Paraná), que congrega 32 entidades de diferentes categorias. A organização, responsável pela coordenação do movimento de greve, convoca novos atos para segunda-feira (8) e terça-feira (9), em Curitiba e na Região Metropolitana. Na UEL (Universidade Estadual de Londrina), o movimento já provocou a suspensão do calendário acadêmico para os cursos de graduação.
A opinião sobre a forma com a qual o governo vem conduzindo as negociações com os grevistas é unânime: falta diálogo. Para o presidente da Acil, a equipe de Ratinho Junior deve colocar as cartas na mesa. “É claro que a situação dos servidores é sensível, mas o governante tem de ter responsabilidade. Apresentar os números e falar da realidade são fundamentais. Acredito que falta clareza”, aponta Moraes.
O presidente da Sociedade Rural do Paraná alerta para que não falte sensibilidade. “É preciso saber lidar com a raiva, com o calor da discussão política. O governo não pode deixar de ser razoável. É preciso mostrar os livros e tratar da realidade”, opina Sampaio. O tema que ainda não tem sinais de solução deve marcar o primeiro ano do governo não só pelo seu posicionamento, mas principalmente sobre a habilidade de governar. Trabalho que só se aprende quando se está no poder.


