Governo quer alterar legislação que indeniza vítimas da ditadura
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de novembro de 2004
Carlos Marchi<br>Agência Estado 
São Paulo - O governo quer mudar a lei que indeniza brasileiros atingidos pela ditadura militar por entender que a legislação criada no governo passado está promovendo indenizações e pensões milionárias. O governo está conversando para mudar isso, garante José Genoino, ex-guerrilheiro e presidente do PT. O secretário de Direitos Humanos, Nilmário Miranda, diz que a Lei da Anistia contém distorções graves porque permite o enriquecimento de algumas pessoas com o dinheiro público que falta para programas sociais importantes. Segundo ele, a conta das indenizações chega a R$ 4 bilhões.
O ex-deputado e advogado Airton Soares diz ter informações seguras de que o governo, embora incomodado pela delicadeza do tema e pelo simbolismo dos personagens, quer mudar os critérios para as indenizações. O advogado Belisário dos Santos Júnior, defensor de militantes de esquerda, quer a mudança e opina que seria de esperar que as indenizações para vivos tivessem um limite, como as dos mortos. Foi um equívoco, deveria haver um limite, opina Soares. É uma discrepância que me espanta, surpreende-se o advogado Marco Antônio Rodrigues Barbosa, defensor de vítimas da ditadura.
As famílias dos mortos e desaparecidos da ditadura militar receberam indenizações que atingiram o valor máximo de R$ 150 mil e eram casos de famílias que ficaram ao desamparo com a perda do chefe. Mas os atingidos pela ditadura que ficaram vivos ganharam uma legislação mais favorável, que lhes permitiu, desde 2001, requerer pensões vitalícias e indenizações retroativas sem qualquer incidência de impostos.
Essas indenizações compreendem uma prestação mensal vitalícia, equivalente ao salário que a pessoa teria quando atingisse o topo de sua carreira profissional, mais um valor bruto, pago em uma só parcela, correspondente a cinco anos de vencimentos retroativos, a contar do dia do recebimento do pedido pela Comissão da Anistia. Mediante este critério, os cálculos atingiram valores altíssimos: muitas pensões superam os R$ 10 mil e alguns retroativos chegam perto dos R$ 2 milhões.
O que o governo quer agora é forçar a reabertura da discussão de uma forma natural, de maneira a não parecer que existe uma posição contrária às vítimas vivas da ditadura. Logo no começo da gestão Lula o governo chegou a pensar em mudar a lei, mas acabou mudando de idéia porque a decisão iria parecer antipática e contra a esquerda militante. Adotou, então, a opção de não aplicar a lei, admite hoje Genoino, isto é, começa a pagar a pensão mensal, mas não paga o retroativo e não toca mais no assunto.


