Brasília - Dividido por uma queda de braço entre a área econômica e ministros da chamada ala ''desenvolvimentista'' apoiada por aliados do Congresso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu adiar por mais alguns dias o anúncio do novo salário mínimo que vai vigorar a partir de 1º de maio. Depois de três horas de reunião com o presidente para tratar do reajuste do mínimo, os líderes governistas deixaram ontem o Palácio da Alvorada prometendo uma solução ''criativa'' e ''inovadora'' para o assunto, que será submetida agora aos partidos da base de sustentação. O governo avisou apenas que o reajuste do mínimo será superior à inflação do período, estimada em 9,7%.
De acordo com interlocutores do governo, uma das alternativas estudadas é elevar o valor do salário família pago aos trabalhadores da iniciativa privada, atualmente fixado em R$ 13 mensais, e deduzido do recolhimento das empresas ao INSS. Um aumento dessa verba beneficia os trabalhadores que ganham até R$ 500, além de aposentados acima de 65 anos (homens) e 60 anos (mulheres). Pelas simulações feitas, entretanto, a medida teria um impacto fiscal muito parecido ao de um aumento de R$ 10 no salário mínimo.
Ao convocar a reunião, o próprio presidente alimentou entre ministros e aliados a expectativa de que daria uma decisão ontem para o reajuste do mínimo. Mais uma vez, porém, a solução empacou no impacto do aumento nas contas da Previdência, como argumentou o ministro Antonio Palocci.
Com a indefinição do governo, o PMDB, maior partido aliado, decidiu engrossar formalmente o coro dos petistas e outros partidos da base em defesa de um valor de R$ 300. O PMDB quer ainda que o novo valor do mínimo seja pago retroativamente ao mês de abril, e não a partir de 1º de maio.
O líder do governo na Câmara, deputado professor Luizinho (PT-SP), disse, ao final da reunião do Palácio da Alvorada, que o valor ainda não foi definido, mas que o reajuste deverá estar acima da inflação. ''Não tem valor. Estamos no início da discussão. O presidente (Lula) não vai fazer como o governo anterior, que não recuperava o poder de compra, só destruía. Vamos continuar recuperando'', declarou o líder.
O vice-presidente do Senado, Paulo Paim (PT-RS), que também participou da reunião com o presidente, mostrou a Lula, ao ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e aos demais participantes do encontros que no valor de hoje, de R$240, o mínimo não suporta as despesas de uma família de dois adultos e duas crianças. Pelos seus cálculos, sobra apenas R$17 para alimentação. ''E uma cesta básica custa em torno de R$136'', alegou. O senador disse que reiterou a proposta de o governo, no seu segundo ano, ultrapassar o valor de US$ 100, mas que nem Palocci nem Lula mostraram-se animados com a proposta.

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