O governo partiu ontem para a negociação paroquial com a base de sustentação no Congresso com o objetivo de conseguir a votação da emenda da reforma previdenciária hoje à tarde. Foi uma verdadeira batalha para acalmar aliados e conter as ameaças de rebeliões que puseram em risco a aprovação da emenda, em primeiro turno.
Os líderes governistas fecharam a contabilidade ontem à tarde e chegaram à soma de 311 votos a favor da reforma. Eles esperavam ainda atrair outros 35 dissidentes até hoje à tarde.
‘‘Temos os votos suficientes para aprovar a reforma, com certa tranquilidade’’, assegurou o líder do PFL, deputado Inocêncio Oliveira (PE). No primeiro teste de plenário, os governistas derrotaram, por 307 votos contra 130, um requerimento das oposições para adiar a votação.
Mas os problemas bateram na porta do governo logo cedo. Chegaram com um fiel aliado, o líder do PTB, deputado Paulo Heslander (MG), que, por causa da ex-mulher, Eleni de Melo Fonseca, ameaçou provocar uma rebelião em massa na bancada petebista - o que poderia causar um estrago enorme na soma apertada de votos pró-reforma.
Desde a semana passada, Heslander está irado com a proposta que a diretoria do sistema Telecomunicações Brasileiras (Telebrás) ameaçava fazer à ex-mulher dele, engenheira concursada da Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel) e funcionária na empresa Telecomunicações de Minas Gerais (Telemig). Heslander ficou sabendo que o grupo pretendia promovê-la a uma diretoria da holding que vai dirigir a Telemat, com sede em Brasília. A questão é que Eleni não quer sair de Minas Gerais, segundo Heslander. Ele disse ter sido informado de que a promoção da ex-mulher seria uma retaliação a ele.
‘‘Isso é uma retaliação que estão fazendo comigo, e é indecente retaliar a parte mais fraca no processo’’, protestou Heslander. De manhã, ele avisou aos líderes Aécio Neves (PSDB-MG) e Inocêncio Oliveira (PFL-PE) que não compareceria ao almoço da tropa de choque do governo na residência do ministro das Comunicações, Sérgio Motta, para decidir a ofensiva governista para aprovação da reforma.
‘‘Acho que essa reforma da Previdência está tão bem encaminhada que não precisa dos votos do PTB’’, provocou Heslander, anunciando a intenção de liberar o voto da bancada e, de quebra, levar pelo menos 15 deputados para a dissidência. Os bombeiros do governo foram mobilizados, Heslander foi à reunião depois de uma hora e meia de atraso e arrancou a garantia de Motta, de que a ex-mulher não seria prejudicada. ‘‘Isso é futrica de tecnocratas’’, justificou o ministro numa conversa a sós com o líder aliado.
O almoço de Motta foi usado também para lamentações do PPB e do PMDB. O líder do PPB, Odelmo Leão (MG), insistiu junto a auxiliares do presidente Fernando Henrique Cardoso para que fizessem ‘‘um chamado’’ ao ex-prefeito Paulo Maluf para que ele viesse hoje a Brasília ajudar na reforma. Odelmo conversou com Motta, depois da discussão coletiva. Saiu sem conseguir o que queria, e, com isso, o governo evitou provocar o ciúme do governador de São Paulo, Mário Covas.
Mais tarde, no Congresso, Odelmo disse que Maluf certamente estaria hoje em Brasília para participar da reunião da Executiva pepebista. O PMDB também expôs as reivindicações. O pleito do deputado Paulo Lustosa (PMDB-CE), apoiado por outros três colegas do Ceará - Firmo de Castro (PSDB), Gonzaga Mota (PMDB) e Roberto Pessoa (PFL) - foi posto na mesa do almoço de Motta.(AE)

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