Governo Lula decepciona movimentos sociais
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sábado, 05 de março de 2005
Roldão Arruda<br> Agência Estado 
São Paulo - ''As decepções são cada vez maiores. Aumenta a cada dia o fosso entre as esperanças depositadas no governo Lula e a realidade que está aí.'' O desabafo foi feito na quinta-feira pelo teólogo e cientista político Egon Heck, da coordenação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Ele havia acabado de concluir uma visita de quatro dias à aldeia dos índios guaranis-caiovás, na periferia de Dourados, Mato Grosso do Sul, que ganhou destaque no noticiário recente por causa da morte de crianças, em decorrência de desnutrição. ''É difícil explicar, mas essas mortes são um dos indicadores, o mais visível, de que a situação destes índios piorou em relação a três anos atrás.''
Manifestações como essa estão se tornando frequentes no meio de líderes de organizações populares. Especialmente aquelas que, no passado, ajudaram a construir o Partido dos Trabalhadores (PT) e fizeram campanha a favor de Luiz Inácio Lula da Silva nas vezes em que se candidatou à Presidência da República.
Na segunda-feira, quando esteve em São Paulo para uma participação no Programa Roda Viva, da ''TV Cultura'', o presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), o bispo d. Tomás Balduíno, disse numa roda de jornalistas que o descontentamento com Lula já é visível no meio dos líderes, os formadores de opinião dos movimentos: ''A base ainda confia nele. Mas a tendência, a curto prazo, é que a desconfiança se espalhe.''
Outro sinalizador do distanciamento entre o presidente e os antigos aliados acaba de sair da mais poderosa central sindical do País a CUT, braço do PT na área trabalhista. Na quarta-feira, dez integrantes da executiva nacional da entidade participaram de um ato de protesto contra a reforma sindical que o presidente apresentou naquele dia ao Congresso. Entre os presentes ao ato, no qual Lula foi chamado de traidor, encontrava-se até o vice-presidente da CUT, o metroviário Wagner Gomes.
Na cúpula do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), outra organização historicamente aliada ao PT, as críticas também são azedas. Na segunda-feira, ao saber que o governo decidiu contingenciar R$ 2 bilhões do orçamento previsto para o Ministério do Desenvolvimento Agrário, o mais conhecido líder da organização, João Pedro Stédile, comentou: ''Isso é uma vergonha e revela duas coisas: que a área econômica é quem manda de fato; e que até agora este governo não tem um projeto nacional. É por isso que o Ministério da Fazenda se dá ao luxo de ir decidindo a seu bel prazer, sem nenhuma diretriz.''
O resultado do corte será o comprometimento das metas da reforma agrária, um dos temas mais caros entre os aliados do passado. ''Neste governo, como nos anteriores, a reforma agrária, ao invés de ser tratada como parte de um projeto de desenvolvimento nacional, é incluída na lista das despesas'', afirma Stédile.
Até a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), que costuma ser mais tolerante com os governos, começa a fazer críticas. Durante o congresso nacional da entidade realizado na semana passada em Brasília, seus líderes reclamaram da lentidão do governo na execução da reforma agrária.


