O governo Fernando Henrique Cardoso aumentou substancialmente seus gastos com publicidade nos últimos três anos. Em 1998, as despesas com anúncios do governo federal, incluindo as estatais, chegaram a R$ 676,2 milhões. Secretário de Comunicação Social neste segundo mandato do presidente Fernando Henrique Cardoso, Andrea Matarazzo defende que é obrigação do governo prestar contas à sociedade, mas acha que é possível, sim, reduzir os gastos com publicidade.
Matarazzo está sugerindo também uma ação mais agressiva na área de comunicação para tentar melhorar o índice de popularidade de FHC, que caiu, nas últimas semanas, ao seu mais baixo nível desde 1994. Em meio a especulações de que iria ser o novo presidente da Petrobrás - ele desmente ter sido convidado ou sondado - Matarazzo disse à reportagem que sugeriu que algumas pessoas do alto escalão apareçam mais na mídia, falando sobre a crise. Entre elas, citou a primeira-dama Ruth Cardoso (‘‘acreditei em 100% do que ela falou no ‘Roda Viva’’’, da TV Cultura), Pedro Parente (secretário-executivo do Ministério da Fazenda e provável novo ministro do Orçamento) e Cláudia Costin (secretária de Administração).
PerguntaO governo está preocupado com a queda de popularidade do presidente?
MatarazzoAlgumas vezes, o governo tem que adotar medidas que não são populares naquele momento e a consequência dessas medidas também não é popular. Mas o projeto do presidente é de longo prazo. É importante que o presidente esteja bem com a sociedade, mas em determinados momentos, em função de algumas medidas, não estará.
PerguntaA queda da popularidade e mesmo da credibilidade do governo e do presidente não dificultam a aprovação das medidas enviadas ao Congresso?
MatarazzoO governo está conseguindo aprovar todas as suas propostas porque existe uma consciência muito grande da parte dos congressistas das necessidades atuais do País. O governo não é feito só de medidas boas, bonitas e populares. É como nas nossas casas: nossos filhos em determinados momentos têm ódio mortal de nós, pais, quando você os obriga a chegar a tal hora ou a estudar. Mas, no futuro, seu esforço vai ser recompensado e eles vão reconhecer o que você fez.
PerguntaO presidente tem que aprender a conviver com a idéia de que, em alguns momentos, a população tem ódio mortal dele?
MatarazzoNão, não é ódio mortal no caso do presidente, mas queda de popularidade. E ele não precisa aprender isso porque, como político, sabe que essas variações de popularidade são inevitáveis.
PerguntaO que o senhor tem recomendado que se faça em termos de comunicação para melhorar a imagem do governo e do presidente?
MatarazzoTenho recomendado que ministros e algumas pessoas do alto escalão falem mais, expliquem o que está acontecendo e que o governo continua agindo.
PerguntaUma postura mais agressiva do governo em termos de comunicação pode ajudar a melhorar a imagem do presidente?
MatarazzoO governo tem é que continuar trabalhando e não criar coisas artificiais para tenta melhorar sua imagem. A credibilidade e a popularidade do presidente e do governo vão melhorar quando os brasileiros sentirem que estão com mais dinheiro no bolso.
PerguntaO presidente e o senhor se preocupam com as constantes referências de que o senador Antonio Carlos Magalhães manda mais do que FHC?
MatarazzoO senador Antonio Carlos é presidente do Congresso e representa, portanto, um dos três poderes. Por causa do regime militar, ficamos acostumados a uma figura imperial do presidente. Temos uma visão distorcida das imagens do presidente e dos líderes dos outros poderes. Além disso, o presidente e ACM têm estilos muito diferentes.
PerguntaO governo não reagiu às críticas feitas por Gustavo Franco na sua saída do Banco Central. O senhor recomendou ao presidente ou ao ministro Pedro Malan, da Fazenda, alguma reação?
MatarazzoO papel da secretaria é recomendar ações, mas a reação a esse tipo de situação é individual. Nem acho que caberia ao presidente reagir ao discurso, que, por ter sido um discurso de saída, é meio dispensável. O que ele fez nos seus anos de BC mostra o que pensa.
PerguntaQual é, então, o papel da Secretaria da Comunicação?
MatarazzoPrimeiro, estamos reorganizando e racionalizando a própria secretaria em busca de uma uniformização na linguagem da publicidade governamental. Queremos eliminar as duplicidades na atuação da secretaria e dos ministérios.
PerguntaA Secretaria é que vai determinar como vai ser a publicidade do governo federal?
MatarazzoA Secretaria tem um caráter normativo, de estabelecer os princípios e de uniformizar a linguagem da comunicação. Queremos que todas as campanhas tenham uma feição parecida. Queremos que todos os anúncios levem a assinatura do governo federal. Outro ponto importante é que seja usada uma linguagem acessível à grande maioria da sociedade.
PerguntaNo Brasil, existe uma tradição de mistura do privado com o público no relacionamento entre governo e agências de propaganda. São muitos os casos de publicitários que ajudaram a eleger um presidente ou um governador e ganharam contas governamentais depois da eleição. Como o senhor vai procurar impedir que isso ocorra?
MatarazzoNo primeiro mandato do presidente já foram tomadas muitas decisões para evitar que isso ocorra. Hoje, mais de 30 agências atendem ao governo federal e não apenas um pequeno número como foi no passado. E essas agências têm muitos clientes entre a iniciativa privada, o que prova que são competentes e criativas.
PerguntaQuanto o governo vai gastar com publicidade neste ano?
MatarazzoÉ algo como R$ 450 milhões, incluindo tudo, até as estatais. Esse é o valor previsto, já com corte no gastos de quase 40%. (Dados do Ministério do Orçamento e Gestão mostram que a redução prevista para este ano é de 33,63%, passando de R$ 676,2 milhões para R$ 490,2 milhões).
PerguntaHá quem defenda que o governo reduza muito os gastos com publicidade ou mesmo não gaste nada. Como o senhor responde a essas críticas?
MatarazzoUma das obrigações do governo é informar a sociedade do que ele está fazendo. Nesse valor está incluindo o gasto publicitário de empresas que competem no mercado e precisam divulgar seus produtos, como o Banco do Brasil, a CEF, a Petrobrás Distribuidora. Existe ainda a publicidade legal, editais para licitações, concorrências etc. Sem falar nos anúncios de divulgação de campanhas, como a de vacinação.
PerguntaÉ comum ouvir publicitários comentando que o governo aplica mal suas verbas na área, não fiscalizando onde são colocados os anúncios. O senhor não acha que existe desperdício nas campanhas publicitárias do governo?
MatarazzoPode haver maior racionalização dos gastos. Uma idéia é regionalizar a veiculação das campanhas. Outra é se gastar menos com a produção de filmes.

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