Governo fez estourar a dívida
Os títulos estão sendo pós-fixados. Um
dos fundamentos do
real foi pro vinagreFolha - O senhor fala do medo da população em relação a uma possível derrocada do real. O fato é que há uma forte crise internacional, com reflexos diretos e preocupantes no Brasil. Como um dos idealizadores do plano, que saídas o sr. apontaria hoje para a crise econômica?
Ciro - Há uma mistificação do governo, tentanto que a sociedade aceite que não há um problema nacional, que é tudo questão internacional, uma crise global, e que o Brasil é apenas um a mais dos países que estão sofrendo. Isso não é verdade. Há, de fato, uma crise global, ela é cíclica e se você puxar um pouco a memória vai ver que ela já aconteceu no México em 95, já aconteceu na Coréia, em Hong Kong, na Polônia, em Israel. Por que? São momentos do capitalismo financeiro. Você tem uma brutal montanha de dinheiro especulando, e em países onde os ativos estão baixos eles entram como uma nuvem de gafanhoto, comprando; esses ativos elevam de valor e quando atingem o ápice, eles os vendem e aí desfinanciam aquele boom e quebram estes países. No mundo inteiro está se discutindo o que se vai fazer com isso. Esse debate vai evoluir no futuro para uma regulação internacional desses fluxos de capital. Enquanto isto não amadurece, qual é a fórmula de você conviver com isso? É mitigar, atenuar, diminuir ou mesmo eliminar as suas necessidades de financiamento externo.
Folha - E como é que se faz isso?
Ciro - Fazendo com que as suas contas internas sejam equilibradas. Este desequilíbrio no Brasil foi produzido no atual governo; ele não é consequência do real, mas sim consequência da estratégia da reeleição, uma perversão - e eu adverti isso na época - que trocou as energias transformistas do país, que caminhariam na direção de atenuar os desequilíbrios, por conta das necessidades de financiamentos externos e internos, por uma lógica de conchavo eleitoral e de gastança do dinheiro público. Resultado: a dívida interna era de 61 bilhões de dólares e estourou para 342 bilhões de dólares. O Brasil arrecadava 27% do PIB quando eu saí do ministério e tinha 1.4% de superávit operacional - as necessidades de financiamentos eram negativas e tinha uma pequena sobra. Agora, esse governo está arrecadando 31,5% com um déficit de 7% do PIB, que significa qualquer coisa ao redor de 56 bilhões de dólares. Ou seja, o governo gasta muito mais do que pode. E veja as contas externas: quando terminou 94, o déficit era de 1 bilhão e 700 milhões de dólares, você precisava tomar emprestado; esse governo arrebentou isso para 35 bilhões. Percebe-se claramente que o Brasil passou da conta do endividamento, passou da conta do desequilíbrio corrente e do fluxo da dívida interna, e passou da conta da necessidade do financiamento externo. Os aplicadores percebem que, pelo menos nos números, o Brasil talvez seja, disparado, o mais desequilibrado dos países.
Folha - Nesse quadro, quais são os riscos mais iminentes na economia brasileira?
Ciro - Temos dois riscos potencializados: uma desvalorização do câmbio, que já se aponta no mercado, com o ágio do dólar pela primeira vez no real, e uma alta dos juros, que o mercado também fareja que vai acontecer. Mas por causa da reeleição, o governo Fernando Henrique Cardoso - eis de novo uma grande perversidade - está imóvel, sem fazer nada do ponto de vista estrutural. Está é estatizando estes prejuízos futuros.
Folha - De que forma?
Ciro - Um dos fundamentos do real é a desindexação. Com o real, todo título público era pré-fixado. Eu te vendia um título hoje e dizia: te pago 12% de juros e fim de papo; se o juro aumentasse, o prejuízo era seu. O que ele está fazendo? Como o mercado fareja que vai aumentar os juros, ele está pós-fixando os títulos, com 60 dias, fazendo explodir e mandando pro vinagre um dos fundamentos do real. Toda a dívida brasileira está sendo pós-fixada. Ou seja, aumentou o juro, o prejuízo agora é do contribuinte brasileiro. Isso é repassado imediatamente a ele. Segundo ponto: como o mercado está prevendo a mudança no câmbio, o governo faz o que, novamente para empurrar com a barriga? O crime de estatizar o prejuízo cambial. Está dando correção monetária, ou correção cambial, a toda a dívida.
Folha - Se eleito presidente, o que o sr. faria imediatamente para corrigir os rumos do plano que ajudou a elaborar?
Ciro - Eu assumiria entre a eleição e a posse. Eu descansaria 24 horas e cairia de novo ao encontro do país, mobilizaria a sociedade, o empresariado, o sindicalismo, as universidades, as igrejas, o Congresso, faria com absoluta transparência um diagnóstico da situação para tomarmos o caminho estrutral de reformas das contas públicas buscando eliminar o desequilíbrio.
Folha - Mas, efetivamente, que medidas o sr. aponta como vitais no quadro atual?
Ciro - Um novo sistema tributário, que desonere a produção e a renda do trabalho - cinco impostos substituiriam todos os atuais - um novo marco para o financiamento da Previdência, que adotaria o sistema de capitalização, tudo com a idéia de construir poupança interna e eliminar a necessidade de financiamentro externo. E em qualquer cenário, a gente precisa ter uma outra atitude de austeridade em relação ao espaço gerencial. Numa crise dessas, com tamanho desequilíbrio, o governo Fernando Henrique gastou meio bilhão de reais esse ano de propaganda. Todo governo faz e deve fazer progapanda, isso é uma função do governo democrático, transparente, moderno. Mas 500 milhões! Isso é absolutamente o triplo de qualquer precedente na história brasileira. Esse governo liberou mais de 5 bilhões e meio de reais em emendas fisiológicas, sem nenhuma consistência, apenas para financiar essa cadeia de clientelismo político. São 6 bilhões em duas canetadas. Só no setor de saúde pública, rouba-se um terço dos 19 bilhões aplicados.





