O governo e seus aliados operaram ontem em duas frentes para brecar a abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) ampla para apurar a corrupção no Brasil. Ao mesmo tempo em que alguns líderes tentavam conter o apoio de senadores à CPI, com o discurso de que ela só serviria para paralisar o Congresso e ampliar a crise política, outros aliados do governo trabalhavam nos bastidores para ampliar o leque das investigações, exatamente para dificultar a abertura do inquérito.
‘‘O objetivo desta CPI ampla não é apurar nada; é criar tumulto no Congresso’’, insistiu o secretário-geral da Presidência, Aloysio Nunes Ferreira. O líder do governo no Senado, José Roberto Arruda (PSDB-DF), foi outro que garantiu que a oposição não conseguirá somar as 27 assinaturas necessárias para abrir o inquérito no Senado. Mas entre as promessas e os apoios já obtidos, a contabilidade do próprio governo atingiu a marca perigosa das 24 assinaturas.
Diante das negociações de bastidores e dos comentários que ocuparam o vazio tradicional do Congresso nas segundas-feiras, o PSDB apressou-se em sair na frente, em mais um manifesto em defesa do presidente Fernando Henrique Cardoso. A nota, assinada pela executiva nacional, pelos governadores e pelos líderes das bancadas do PSDB na Câmara e Senado, tem seis itens e o inquérito já é desqualificado no primeiro deles, em que a CPI é citada como uma proposta que objetiva paralisar o processo de reformas e bloquear as ações do Parlamento.
‘‘O PSDB, unido em torno do presidente, não dará respaldo às acusações oportunistas da oposição e de alguns aliados circunstanciais e combaterá, com todas as suas forças, a tentativa de criar no País um clima indesejável, cuja consequência será a instabilidade e uma ameaça ao desenvolvimento econômico em curso’’, diz a nota tucana.
Já os peemedebistas – que ajudam o governo a evitar o inquérito – lembram que tem muito mais gente envolvida na proposta ampla da oposição do que um exame rápido do requerimento pode sugerir. Segundo um cardeal do PMDB, esta CPI poderá implicar o ministro da Saúde, José Serra (PSDB), já que menciona o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação, Andrea Matarazzo, e levanta suspeitas de uso político das verbas publicitárias do governo. Alerta também, o cardeal, que toda a política de incentivos fiscais do Brasil está sob suspeição, inclusive o Banco do Nordeste do Brasil (BNB), comandado pelo governador tucano Tasso Jereissati (CE).
O presidente Fernando Henrique reafirmou ontem, por meio de seu porta-voz, que ‘‘o governo não teme nem tem nada a esconder de uma CPI’’. Segundo Georges Lamaziére, a maioria dos casos ali citados ou já está sendo investigada pelo governo ou é fantasiosa. O presidente também afirmou que não está envolvido em nenhum corpo-a-corpo junto à bancada governista, já que teria apenas conversado sobre o assunto com dois senadores amigos. Ele Referia-se aos telefonemas dados a José Fogaça (PMDB-RS) e José de Alencar (PMDB-MG). (Colaboraram Rosa Costa, Tânia Monteiro, Gilse Guedes e Gerson Camarotti)

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