O governo federal está preparando a transição para permitir que seu candidato a presidente saia com um discurso eleitoral propondo avanços na política econômica, sem fazer oposição ao ministro da Fazenda, Pedro Malan. Sutilmente, a área econômica do governo afina o seu discurso com o do presidenciável tucano e ministro da Saúde, José Serra. Ao mesmo tempo, Serra distribui elogios aos economistas do governo.
Articuladores do Palácio do Planalto apontam o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Sérgio Amaral, como o ''homem-chave'' para operar a transição, com um slogan: ''Continuidade sem continuísmo''. A idéia é que ele lance as bases para um programa de desenvolvimento, marcado pela adoção de uma política industrial e de exportações, aumentando a intervenção do Estado na economia. Teses antes defendidas pelos ''desenvolvimentistas'' do PSDB, liderados pelos ministros Serra e Luiz Carlos Mendonça de Barros (ex-titular das Comunicações), que perderam a queda de braço com a Fazenda.
Em visita ao Congresso na semana passada, o embaixador Sérgio Amaral falou explicitamente na adoção de uma política industrial com substituição competitiva de importações e especificou os setores: petróleo, bens de capital, complexo farmacêutico e eletro-eletrônicos. Repetiu, assim, as propostas que o próprio Serra defende.
Amaral não nega semelhanças. ''Quanto mais puder coincidir com as pessoas, melhor'', desconversou. No entanto, ele garante que a mudança de posição do governo não se deve à preocupação com a campanha eleitoral, mas ao cenário econômico mundial: ''É decorrência de uma mudança no mundo.''
No Congresso, os partidários da candidatura do ministro da Saúde dizem que o congelamento não é em nada parecido com os anteriores, uma vez que ficou restrito a um setor ''cartelizado, onde não há uma competição real.'' Agora, porém, a equipe do ministro Malan acata, constrangida, o congelamento proposto por Serra.
Tanto a política industrial quanto o congelamento, que provocavam urticária nos chamados ''monetaristas'' do governo, são parte de uma estratégia que pretende capitalizar o que deu certo até o momento e propor avanços em áreas que merecem reparos dos próprios aliados do governo. ''Não é um discurso fácil de ser formatado. A idéia é não questionar o que foi feito, mas transitar para um outro momento, com uma postura agressiva de comércio internacional'', afirma o presidente da Câmara, Aécio Neves (PSDB-MG).
Nesta linha, Amaral disse que ''o comércio é a guerra do século XXI'', cujo objetivo principal não é a conquista territorial, mas ''dois bens valiosos: emprego e salário''. Sérgio Amaral defendeu, ainda, que num cenário onde a economia mundial tende a se retrair é necessário ''proteger empresas e empregos''.

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