O governo do Estado formalizou ontem o pagamento de indenizações para 177 ex-presos políticos, perseguidos durante o regime militar e detidos em estabelecimentos estaduais entre 61 e 79. A entrega dos cheques foi no Palácio Iguaçu. As primeiras indenizações foram pagas pelo governador Jaime Lerner (PFL) para Berek Kriger, Ildeo Manso Vieira, Ubirajara Moreira, Diogo Gimenez, Valmor Marcelino, Zélia Passos e Clarice Valença.
Ao todo, a comissão que julgou os processos dos ex-presos autorizou o pagamento de 237 recursos. Inúmeros ex-presos morreram e os familiares ainda não entregaram toda a documentação para que o dinheiro seja liberado, explicou ontem o presidente da comissão e ex-ouvidor geral João Elias de Oliveira. Ele informou que o bolo das indenizações custou R$ 6 milhões para os cofres estaduais.
O Paraná foi o primeiro Estado a aprovar a lei das indenizações, mas o segundo a pagá-las. O governo do Rio Grande do Sul já efetuou o pagamento há cerca de quatro meses. Apenas seis pedidos foram indeferidos pela comissão presidida por Oliveira. Os cheques entregues ontem variam entre R$ 5 mil e R$ 30 mil. O deputado estadual, Beto Richa (PSDB), autor da lei, acompanhou a solenidade que contou com centenas de pessoas. Segundo o deputado, o pagamento foi um ‘‘ato de Justiça’’.
O governador Jaime Lerner, que se recupera de uma pneumonia, disse que ‘‘o mais importante não é a indenização pecuaniária, mas a moral’’. ‘‘O Paraná está reconhecendo que errou’’, disse o governador que durante o regime militar foi prefeito biônico de Curitiba. ‘‘Tenho orgulho de estar presidindo este momento. Estamos fazendo história. Muitas vezes neste País se tentou apagar a história. Eu aprendi em casa ter a serenidade para respeitar o ser humano’’, discursou.
Representante dos ex-presos políticos, Narciso Pires elogiou a postura adotada pelo governador durante seu mandato como prefeito. Pires disse que Lerner agiu com ‘‘descência’’ e que não perseguiu as pessoas consideradas pelo sistema perigosas. Ele citou o caso de Zélia Passos, a mulher do ex-deputado federal Edésio Passos. Adepta de uma entidade clandestina, a ‘‘Ação Popular’’, Zélia Passos ficou presa durante dois meses, perdeu cargo na Universidade Federal do Paraná, mas foi mantida por Lerner em suas funções na Prefeitura de Curitiba. ‘‘Ele (Lerner) foi materialmente solidário’’, elogiou.
Diogo Gimenez recebeu R$ 30 mil pelos três anos que ficou preso, sem saber ao certo os motivos. ‘‘Eu era amigo do (Luiz Carlos) Prestes, acho que foi isso’’, conclui. Seo Giogo, como é conhecido em Curitiba, conta que chegou a ter cinco costelas quebradas durante uma ação policial. ‘‘É um dinheiro que não paga, mas dá alívio porque pela primeira vez se reconhece que fomos vítimas de um erro’’. Com câncer no esôfago, o ex-preso político conta que o dinheiro servirá para pagar o tratamento. ‘‘Antes eu queria comprar uma casa, mas estou tendo de mudar de planos’’, considerou.
Também doente, Antonio Lima Sobrinho, que reside em Londrina, fez questão de comparecer na solenidade de ontem. Assim como Gimenez o cheque repassado pelo governo do Estado a Sobrinho será aplicado em tratamento médico. O ex-preso político teve derrame cerebral meses atrás e está com sérios problemas cardíacos. Ontem, ele foi receber seu cheque de R$ 30 mil acompanhado da filha e com cadeira-de-rodas.

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