Brasília - Ainda à procura de uma saída para a crise política instalada no governo por causa do envolvimento do ex-assessor parlamentar da Casa Civil Waldomiro Diniz em corrupção, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva está diante de um outro desafio: fazer o rearranjo da máquina administrativa. O modelo centralizador adotado pelos petistas, que deu superpoderes ao ministro da Casa Civil, José Dirceu, mostrou-se vulnerável. Abatido pelas denúncias contra Waldomiro, seu ex-homem de confiança, Dirceu entrou num estado de letargia. Com isso, contaminou o resto da máquina administrativa.
Ministros se queixam de que as propostas chegam à Casa Civil e da lá não saem. ''Claro que eu vejo problemas, mas obviamente tudo melhorou. Agora, não está bom. Quem sabe disto e está lutando para mudar, e já mudou, é o presidente Lula'', diz o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes. Na semana passada, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, perdeu a paciência e chamou o colega do Planejamento, Guido Mantega, de ''vagabundo'', por causa da demora em ver seus pedidos atendidos. Mais tarde, recuou, disse que fizera um desabafo, sem intenção de acusar ninguém.
Mas, na sexta-feira, ao comentar os resultados do encontro de Lula com Rodrigues no dia anterior, aliados do ministro da Agricultura comemoravam: ''Valeu a pena ter chamado o outro de 'vagabundo', a audiência foi ótima''.
No modelo petista, além da existência de um superministro, a administração obedece a um sistema horizontal em que o ministro de outro partido que não o PT não indica os ocupantes dos cargos subalternos. Por temer esse tipo de prática em seus ministérios, o PMDB negociou também os cargos de baixo.
Ex-ministros estão mais à vontade para criticar o modelo administrativo posto em prática pelo presidente Lula. O senador Cristovam Buarque (PT-DF), ex-ministro da Educação, afirma que o imobilismo constatado hoje não é apenas por conta do caso Waldomiro, com o qual também trabalhou de 1995 a 1998. Dois meses depois de sair do governo, o senador diz que o maior problema da administração de Lula é a falta de definição clara sobre o projeto de poder. ''O impacto do caso Waldomiro foi maior porque o governo já estava paralisado'', afirma. ''Se o governo tivesse clareza de onde e como quer mudar o Brasil, o caso não teria ganho essa dimensão.'' Cristovam diz que há ''idéias prontas'' nas mesas de diversos ministros, muitas emperradas nos escaninhos da burocracia.
O atual ministro da Educação, Tarso Genro, do PT, discorda de Cristovam. Para ele, o governo precisa ter um núcleo decisório forte. Um eventual imobilismo na tomada de decisões, na sua opinião, não tem relação direta com o abatimento de um ministro importante. ''Se é verdade que houve paralisia do governo, ela ocorreu em função de uma crise política conjuntural, não de um núcleo dirigente'', afirma.
No Congresso, o senador Romero Jucá (PMDB-RR) vai mais longe: acha que a turbulência só chegou a essas proporções porque atingiu o relacionamento do Planalto com sua base de sustentação. Vice-líder do governo, Jucá diz que os aliados precisam de ''mais carinho'', mas jura não estar falando de cargos. ''É o cumprimento de compromissos assumidos, a discussão de idéias, de emendas'', ameniza. No diagnóstico de Jucá, o governo precisa ''começar a operar''. ''E também aprender a apanhar'', completa.

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