Brasília - O governo brasileiro comemorou ontem pelo menos três pontos positivos da visita do secretário de Estado americano, Colin Powell, ao Brasil. Ele se comprometeu a levar ao secretário-geral das Organizações das Nações Unidas (ONU), Kofi Annan, o pedido brasileiro de que se acelere o envio de tropas ao Haiti. Powell classificou o Brasil como ''forte candidato'' a uma vaga permanente no Conselho de Segurança (CS) da ONU. Ainda não é um apoio formal, mas é o mais próximo disso que os Estados Unidos chegaram até hoje. Além disso, Powell foi categórico ao afirmar que o Brasil não pode ser confundido com Coréia do Norte ou Irã no que se refere ao uso da energia nuclear.
O Haiti foi o assunto que tomou a maior parte do tempo da reunião que Powell teve anteontem à noite com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. O Brasil lidera as forças de paz naquele país, mas enfrenta dificuldades para manter a ordem principalmente depois que parte da ilha foi devastada pelo furacão Jeanne. Hoje há cerca de 2 mil soldados no Haiti, quando o previsto seriam 6 mil. Parte dos países que se comprometeram a enviar tropas ainda não o fizeram. Powell disse que conversaria com Annan para reforçar o pedido de maior rapidez no envio de tropas.
Amorim e Powell fizeram uma análise do quadro no Haiti e concordaram que a situação é preocupante. Nos últimos dias, seguidores do ex-presidente Jean Bertrand Aristide, deposto em fevereiro, promoveram manifestações violentas que provocaram a morte de 14 pessoas. Eles ameaçaram ''cortar a cabeça'' dos integrantes da força de paz que tentassem interferir. No governo americano, não se descarta o risco de os rebeldes haitianos recorrerem a sequestros, tal como ocorre no Iraque.
Outro saldo comemorado por Amorim foi o fato de Powell haver classificado o Brasil como ''forte candidato'' à vaga no Conselho de Segurança da ONU. ''É o máximo que poderíamos esperar na atual conjuntura'', comentou Amorim. Powell disse que não poderia avançar mais do que isso, porque os Estados Unidos estão esperando a conclusão dos trabalhos do grupo de notáveis que proporá mudanças na ONU. ''Não sabemos o que eles vão propor. Pode ser que eles sugiram mais vagas rotativas, ou que eles proponham apenas mais um ou dos assentos permanentes'', explicou o secretário americano.
Para a diplomacia brasileira, esse resultado está bom para o momento. Dos cinco membros permanentes do Conselho da ONU, três (Reino Unido, França e Rússia) já apoiam a candidatura do Brasil. A China não formalizou sua posição, mas informou que daria seu apoio ao País. E os Estados Unidos deram um sinal positivo ao Brasil.
Houve alguma pressão para o governo brasileiro assinar o protocolo adicional da Agência Internacional de Energia Nuclear (AIEA). ''Gostaríamos que o Brasil assinasse o protocolo'', disse Powell. No entanto, ele afastou especulações que a demora brasileira em assumir o compromisso fortaleceria a posição de países como Coréia do Norte e Irã, que não concordam com os termos da inspeção. ''Não estamos preocupados com isso'', afirmou o secretário.
Ele se disse surpreso com a insistência com que o tema surgiu nas entrevistas que concedeu no Brasil, já que esse não era um tema central da agenda. ''Não assinamos o protocolo porque queremos mais tempo para negociar'', disse Celso Amorim. Ele reafirmou que o Brasil nunca se recusou a assinar o documento. No entanto, quer garantias de proteção à tecnologia brasileira. ''Acho que essa questão se resolverá logo'', comentou.
Ele acredita que as negociações em curso para a inspeção na planta de enriquecimento de urânio em Resende, no Estado do Rio de Janeiro (RJ), pode ser um ponto de partida para um entendimento em torno do protocolo. Segundo o ministro, é interesse do Brasil resolver logo essa questão, para colocar a planta em funcionamento.

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