Brasília - Foram 16 horas ininterruptas de muita conversa, contabilidade feita na ponta do lápis, reuniões intermináveis e uma troca frenética de telefonemas entre ministros, governadores, líderes governistas e de partidos aliados. Para alcançar a marca folgada de 378 votos favoráveis - 70 além dos 308 necessários - e conseguir aprovar a reforma tributária em primeiro turno na Câmara, às 2h50 horas da madrugada de ontem, articuladores políticos do governo desdobraram-se em negociações. O Palácio do Planalto foi forçado a antecipar concessões e negociações que o governo só pretendia colocar na mesa quando a reforma chegasse ao Senado.
Para concluir o primeiro turno da matéria, o governo ainda terá que enfrentar, pelo menos em tese, 48 votações de emendas aglutinativas e destaques com mudanças de propostas ao texto global da reforma tributária. O PFL já anunciou que não vai admitir nenhum acordo político para agilizar as votações. Ou seja, vai tentar impedir que o governo e seus aliados façam acordo para, por exemplo, eliminar as emendas em bloco.
Com pressa de garantir a prorrogação por mais quatro anos da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), que deve render pelo menos R$ 24 bilhões ao Tesouro este ano, e da Desvinculação das Receitas da União (DRU), o governo, mesmo depois de decretar o encerramento das conversas e concessões, colocou ministros e líderes governistas de volta à mesa de negociação por conta da pressão dos governadores, especialmente os do Nordeste.
A pressão política forçou o atendimento dos interesses de partidos políticos, governadores, prefeitos e algumas bancadas específicas como a da Zona Franca de Manaus e do setor de informática, que só nas últimas horas de negociação impuseram ao governo federal compromissos da ordem de R$ 3 bilhões.
''O que a Câmara aprovou não é reforma tributária; é uma colcha de retalhos em que cada pedaço foi posto ali para atender a um segmento, uma bancada, um governador'', contesta o deputado ACM Neto (PFL-BA), ao elogiar o governador Paulo Souto por não ter participado do acordo que, na visão dos pefelistas, só pretendia viabilizar a aprovação dos dois pontos vitais para o governo federal: Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) e Desvinculação de Receitas da União (DRU).
Além do PFL, só o Prona e o PSDB encaminharam a votação pedindo às suas bancadas que votassem contra a reforma tributária. ''Queremos votar cada emenda, uma a uma, expondo contradições do relatório. Por mais que governo tenha ampla maioria, não vai ter como fugir do debate'', insiste ACM Neto.

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