A Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (Sudam) vai começar, a partir de segunda-feira, a cancelar diversos projetos financiados com recursos públicos que estão irregulares ou foram obtidos por meio de fraudes. Ontem, o primeiro lote ficou pronto e não serão mais submetidos ao conselho deliberativo da Sudam. ‘‘A decisão será ad-referedum (até que seja referendada)’’, explicou o interventor da Sudam, José Diogo Cyrillo.
Segundo Cyrillo, ainda não há número determinado de projetos nem em que regiões estão instalados, mas poderão ser acima de dez. ‘‘Entretanto, este é apenas o primeiro de uma série de outros lotes que vamos soltar nos próximos dias’’, afirmou o interventor da Sudam. Pelo levantamento feito pelo órgão, a maior parte deles deve ficar no Pará, onde existe um grande número de empreendimentos irregulares ou resultado de fraudes.
Esta semana, a Sudam começou a fazer a identificação dos atuais proprietários de projetos financiados com recursos públicos. ‘‘Estamos procurando os proprietários até para saber que eles estão ainda à frente das empresas’’, diz Cyrillo. Ontem, a corregedora-geral da União, Anadyr de Mendonça Rodrigues, esteve na Secretaria de Controle Interno do Ministério da Fazenda, que integra o grupo do governo que investiga as irregularidades na Sudam. Ela visitou também o Supremo Tribunal Federal e Superior Tribunal de Justiça.
O ministro da Justiça, José Gregori, cobrou ontem do procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, que investigue o vazamento das conversas gravadas pela Polícia Federal de pessoas suspeitas de fraudes na Sudam. Gregori disse que a divulgação da escuta telefônica prejudicou o curso da apuração, mas garantiu que a PF continuará trabalhando no caso.
Na véspera, quando o ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra, cobrou da PF a investigação na Sudam sem o conhecimento de autoridades do governo, a Polícia Federal, por sua vez, responsabilizou procuradores pelo vazamento do grampo. ‘‘Eu pedi a abertura de um inquérito e espero que o doutor Brindeiro esteja fazendo a mesma coisa com relação aos procuradores’’, disse. Pelo seu raciocínio, como as investigações em torno da Sudam correm em segredo de Justiça, o vazamento de informações só pode ter partido de algum dos órgãos ligados diretamente ao caso: a própria PF ou o MPF, que tiveram acesso irrestrito ao material das apurações.
As suspeitas dentro da própria Polícia recaem na Procuradoria da República em Tocantins, onde o inquérito estava desde o dia 23 de março. Na própria nota oficial divulgada anteontem, a Polícia Federal mencionou o fato, e na conversa que teve com Gregori, o diretor-geral da PF chegou a falar sobre a possibilidade de o vazamento ter ocorrido no Ministério Público, mas não citou nomes. ‘‘A nós, do Ministério Público, não interessava o vazamento, mas sim o sigilo para podermos concluir o caso’’, afirmou o procurador da República no Estado, Mário Lúcio Avelar. ‘‘Portanto, as suspeitas são infundadas’’, acrescentou Avelar.
O temor, dentro do governo, é de que novos vazamentos aconteçam. Foram produzidas, em seis meses, cem fitas com diálogos de 20 pessoas, num total de mais de 360 horas de gravações, e dezenas de relatórios com transcrições das conversas dos suspeitas. Desde o início do mês passado, quando surgiram as informações sobre a escuta telefônica, a PF não conseguiu nenhuma nova pista referente aos supeitos.

mockup