Brasília O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva já pode reivindicar o mérito de ter promovido mudanças substanciais no principal instrumento da política: a linguagem. É fácil constatar nos discursos, pronunciamentos e entrevistas da atual elite do poder o desaparecimento de palavras de uso corrente no tempo em que ela era oposição. ''Neoliberal'', por exemplo, sumiu do vocabulário petista. O mesmo se deu com ''elites'' e ''fisiológico'', e os derivados desses termos.
Expressões como ''caráter público'', ''sociedade organizada'', ''controle social'' e ''responsabilidade social'' subiram para o centro do palco. ''Aparelhar'' entrou no léxico como uma novidade acusatória: diz-se que o PT ''aparelha'' o Estado, isto é, preenche cargos de todos os escalões com seus militantes.
Nos últimos dias, essas mutações chegaram ao debate sobre os rumos da economia. O ministro da Fazenda, Antônio Palocci, baniu a palavra contingenciar da linguagem da burocracia governamental. A perder de vista no tempo, durante anos, os executores do orçamento da União usavam-na para informar que controlariam ''as despesas do orçamento para evitar desequilíbrio financeiro'', conforme define o dicionário Houaiss.
Para não melindrar os parlamentares da base governista com o ''corte'' (outra palavra cortada da linguagem oficial) das suas verbas, o ministro trocou ''contingenciar'' por ''programar'' e ''cautela'', e a mídia traduziu tudo isso por ''bloqueio''.
As palavras querem dizer todas a mesma coisa. O que os linguistas da política provavelmente imaginam é que trocá-las poderá tornar menos violento o ato de controlar seus escassos recursos e segurar a hegemonia decisória.
''Assistencialismo'' também sumiu e é explicado por ''política compensatória'' e ''combate à pobreza''. Até a palavra ''comunista'' não define mais os seguidores da doutrina de Marx, Engels e Lênin. ''Sou só de esquerda, não comunista'', se esquiva o líder do PT, senador Aloizio Mercadante (SP).

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