Arquivo FolhaAto falhoAntonio Britto: Planalto imaginava que ele comandava o PMDB. ErrouBRASÍLIA - Enquanto rola o jogo da reeleição, os principais articuladores do governo, no Congresso e no Palácio do Planalto, ainda se fazem uma pergunta: ‘‘Onde foi que nós erramos?’’ Em conversas mais ou menos reservadas, a maioria prefere reclamar de uma suposta traição dos líderes do PMDB: eles deixaram correr frouxa a convenção nacional do partido que, no domingo passado, decidiu parar o relógio da reeleição. Mas sabem que escolheram a hora e os interlocutores errados para negociar um tema que é fundamenrtal para o futuro do governo.
Nos dias que antecederam a convenção, o presidente Fernando Henrique Cardoso fez um tour pelas lideranças do PMDB, mas deixou de falar com o único político do partido com um interesse imediato em jogo: o senador Iris Rezende (GO), candidato à presidência do Senado, contra Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), abençoado pelo Planalto. ‘‘Combinaram o jogo com o lateral errado’’, constatou, já no domingo, o deputado governista Geddel Vieira Lima (PMDB-BA).
A convenção deu a Iris a última oportunidade de exigir, do governo, pelo menos uma posição de neutralidade na disputa pelo Senado. Em torno dele, uniram-se as mais variadas correntes do partido - alguns por solidariedade, outros, por oportunismo. O fato é que o governo ficou acuado, pois contava com uma ilusão para combater a manobra: a influência dos nove governadores do partido sobre os convencionais. Nenhum deles nem sequer usou a palavra no plenário.
‘‘O Planalto sempre achou que podia controlar o PMDB por meio do governador Antônio Britto’’, disse o deputado João Almeida (PMDB-BA). ‘‘Depois da convenção, deve ter percebido que o partido é outro, não é mais aquele de dois anos atrás’’. Durante toda a primeira metade do governo, Fernando Henrique prestigiou o chamdo PMDB do Sul, que ganhou dois ministérios, tratando as outras correntes no varejo.


‘‘Eles combinaram
o jogo com o
lateral errado’,’
diz Geddel Lima

Além dos gaúchos, só uma figura do PMDB mereceu atenção especial: o ministro de Assuntos Políticos, deputado Luiz Carlos Santos (SP), que hoje está ameaçado. O ministro consola-se com o argumento de que foi o único a recomendar ao governo um adiamento da votação da emenda. ‘‘Sempre achei perigoso misturar as datas da emenda e da sucessão nas mesas da Câmara e do Senado’’, recorda. O ministro tem razão nesse ponto: a coincidência, programada pelo PFL, transformou-se no maior entrave à aprovação da emenda.
‘‘Por que é que a emenda tem de ser aprovada na Câmara pelo presidente Luís Eduardo Magalhães e, no Senado, pelo pai dele?’’, indagava o líder do PMDB no Senado, Jáder Barbalho (PA). ‘‘Parece que esse era o único objetivo do calendário estabelecido unilateralmente pelo governo’’. Atrasar o relógio e ganhar tempo passou a ser a estratégia dos rebeldes no PMDB. ‘‘Era óbvio que isso ia acontecer’’, lamenta Geddel Vieira Lima. ‘‘Não havia oportunidade melhor para eles agirem’’.
‘‘Quando a gente pisa em carpete, de salto alto, é isso que acontece’’, disse a deputada Yedda Crusius (PSDB-RS), ao se encontrar com o líder do governo na Câmara, deputado Benito Gama (PFL-BA), no dia seguinte à conmvenção do PMDB. O desabafo da deputada mostra que o governo foi apanhado em um lance de extrema autoconfiança, esquecendo-se que as pesquisas de opinião pública - hoje favoráveis à reeleição - nem sempre chegam ao Congresso na velocidade desejada.

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