Os governadores de oposição reunidos ontem em Porto Alegre decidiram que vão à audiência na terça-feira com Fernando Henrique Cardoso, marcada ontem pelo presidente, para dar um ultimato ao presidente: ou o governo federal suspende as retaliações contra os Estados ou o diálogo com a União - e o pagamento das dívidas - serão suspensos. ‘‘Se o presidente da República não der fim imediato às retaliações, não há mais nenhum diálogo a ser feito’’, sustentou o governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), pouco depois do encontro. ‘‘Se, no dia 9, as retaliações não forem suspensas, nós vamos nos reunir imediatamente e adotar outras medidas, entre elas a de dialogar diretamente com a sociedade’’, afirmou o governador do Acre, Jorge Viana (PT).
Como retaliações, eles entendem o bloqueio dos recursos de Minas e de Alagoas pela União e a suspensão dos empréstimos externos aos mineiros e gaúchos, como consequência das informações enviadas pelo governo a organismos internacionais. ‘‘Os governadores esperam que, na audiência marcada para o próximo dia 9, o presidente aceite repactuar a dívida dos Estados em termos compatíveis com a realidade e o interesse público e anuncie o fim imediato das retaliações inaceitáveis contra entes da federação, inclusive junto a organismos internacionais’’, ressalta a Carta de Porto Alegre (ver abaixo).
Com a presença dos governadores de Alagoas, Ronaldo Lessa (PSB); do Amapá, João Capiberibe (PSB), e do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (PST), além de Viana, Olívio e Itamar, a reunião começou às 14h45, no gabinete do governador gaúcho, e terminou às 17h45, com um atraso de 1h15. Depois da leitura da carta, os governadores deram uma entrevista coletiva.
Antes da reunião, os governadores de Alagoas, Amapá e Acre reiteraram que não admitem a posição do governo Fernando Henrique Cardoso de não querer discutir a renegociação. Mas Lessa reparou que, apesar do discurso, o Palácio do Planalto vem sinalizando positivamente para um entendimento. Como exemplo, citou o abandono da postura inicial de só conversar individualmente com cada Estado e a disposição de inserir outros temas nas negociações, como a revisão da Lei Kandir.
‘‘Não temos a ilusão de que vamos conseguir tudo o que queremos nem o governo pode dizer que não vai ceder nada; vai ceder sim; este que é o entendimento; isto que é democracia’’, acentuou Lessa. Ele ressaltou que, numa negociação, ‘‘um entra com 100 e o outro, com 10; depois, a venda sai por 30 ou 40’’, disse.
O presidente nacional do PT e deputado, José Dirceu (SP) também esteve em Porto Alegre e chamou FHC de ‘‘irresponsável’’ por ter feito ‘‘uma provocação’’ à oposição, ao determinar a suspensão do repasse da verba do Fundo de Participação dos Estados (FPE) destinada a Alagoas. ‘‘Temos de responder à altura’’, propôs. A resposta, segundo ele, será ‘‘a mobilização do povo de Alagoas e enfrentar o governo federal’’.
Dirceu acentuou que Brasília ‘‘não quer negociar’’ e perguntou: ‘‘Alguém acha que o problema do Brasil está na dívida dos Estados?’’ Ele mesmo respondeu, dizendo: ‘‘Cada 1% que o juro sobe hoje, o Brasil perde R$ 2 bilhões; o País já perdeu R$ 30 bilhões com a primeira desvalorização.’’ Diante disso, argumentou: ‘‘Alguém, em sã coinciência, acha que o problema é Minas ou o Rio Grande?; isto é uma coisa ridícula’’, tachou.

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