Eliane Azevedo
Agência Estado
Do Rio de Janeiro
A negociação prevista entre os governadores e as bancadas de cada Estado no Congresso para aprovar a emenda que estabelece a contribuição previdenciária de servidores inativos promete ser espinhosa. Com o poder de barganha achatado pela crise financeira que atravessa a maioria dos Estados e influência em geral restrita aos aliados mais fiéis, os governadores, segundo um levantamento, terão de lançar mão menos de cargos e promessas e mais de sua capacidade de mobilização da opinião pública para virar votos de deputados e senadores contrários à emenda.
Na reunião dos governadores com Fernando Henrique, na sexta-feira, ficou decidido que eles vão pressionar os deputados e senadores de seus Estados para apoiar a proposta de emenda do Planalto. ‘‘Os governadores têm relativo poder e não está aí a importância do acordo entre eles e o presidente’’, pondera o líder do PSDB na Câmara dos Deputados, Ronaldo Cézar Coelho (RJ). ‘‘Eles são importantes hoje pela sinalização para a sociedade, porque o deputado é mais dependente da opinião pública do que diretamente da influência do governador’’.
Para Coelho, a partir da reunião, a questão da Previdência deixou de ser de governo para se transformar num problema de Estado. Ou seja, repartindo a responsabilidade com governadores e ganhando o apoio até de nomes expressivos da oposição, como o do petista Olívio Dutra, do Rio Grande do Sul, FHC conseguiu transmitir para a sociedade o ponto de vista de que o déficit previdenciário não é apenas um problema do governo federal.
‘‘A posição do governador repercute na sociedade, porque ele é um representante direto’’, avalia o ex-governador do Rio, Marcello Alencar (PSDB), que também vê na influência na opinião pública o maior trunfo na negociação com o Parlamento. Para ele, foi-se o tempo em que as bancadas tinham como líder o governador.
Segundo Alencar, a prioridade dos governos é a relação com as Assembléias, onde acontece o cotidiano da prática política. ‘‘Em Brasília, essa influência se dilui: os parlamentares levam para o Congresso as mesmas divisões que existem na política regional e a bancada não tem um status de unidade’’, aponta. O senador Paulo Hartung (PPS-ES), líder de seu partido, concorda. ‘‘A bancada de Goiás, por exemplo, sofre influência do governador Marconi Perillo (PSDB), mas também dos senadores Íris Rezende (PMDB) e Maguito Vilela (PMDB)’’, aponta.
Na própria bancada do ES, aliás, Hartung lidera uma ala, o governador José Ignácio Ferreira (PSDB) outra, e há ainda o setor influenciado pelo senador Gerson Camata (PMDB).
Hartung questiona, no entanto, se, antes de aberta a temporada das barganhas estaduais, o presidente Fernando Henrique não ficará refém do toma-lá-dá-cá com os Estados. ‘‘O governo está se enredando nas amarras das barganhas em nível fiscal, que vão trazer problemas de caixa mais tarde’’, lembra, referindo-se à reivindicação dos governadores de compensações com as perdas da Lei Kandir e do Fundef, em troca do apoio à emenda. ‘‘O governo foi hábil ao chamar os governadores e inábil por não envolver outros setores da sociedade, como os partidos, trabalhadores e empresários, o que o livraria dessas amarras e não pulverizaria a discussão’’, diz Hartung.

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