São Paulo - A oposição parlamentar ao governo Luiz Inácio Lula da Silva terá forte influência dos governadores recém-eleitos pelo PSDB, todos eles de longa vivência congressual, à frente José Serra (SP) e Aécio Neves (MG). Essa influência deve agir, também, no redesenho do PSDB e na implantação, nos Estados tucanos, de gestões que funcionem como contraponto ao governo Lula, para mostrar à sociedade o modelo tucano de formular políticas e de governar. ‘‘A dupla Aécio-Serra abre uma perspectiva de ação congressual e dá pragmatismo ao diálogo com o governo’’, diz o deputado Nárcio Rodrigues (MG), porta-voz de Aécio, que, no início da semana, teve longa conversa com Serra, em São Paulo. ‘‘A convivência de Serra e Aécio vai ser muito boa’’, aposta o deputado Jutahy Júnior (BA), ligado a Serra. Para ambos, a oposição ao governo Lula tem de ser ‘‘programática’’, expressão que explica o confronto político com os governos estaduais tucanos à frente.
  Serra e Aécio já orientaram seus grupos, em pronunciamentos feitos depois do segundo turno. Eles pretendem fazer uma permanente e saudável competição de políticas e gestões com o governo Lula, sem afogueados tiroteios verbais, num cenário para mostrar à sociedade brasileira quem planeja e governa melhor. Esta semana, após conversar com Serra e o ex-presidente Fernando Henrique, o senador Tasso Jereissati, presidente do PSDB, definiu que a convivência com o governo será via governadores, num reforço ao papel dos governadores. ‘‘O governo manda os projetos e nós discutimos’’. Nada, pois, de pacotes de apoio prévio.
  Mas o estado de espírito que anima os outros dois partidos da aliança recém-derrotada por Lula é muito mais hostil. O PFL, mais que todos, está pintado para uma interminável guerra contra petistas de qualquer tribo. ‘‘Não tem convivência possível. Não confiamos no presidente’’, antecipa o deputado José Carlos Aleluia (BA), líder do PFL na Câmara. Se Lula convidar a oposição para um diálogo, o PFL ‘‘não atravessa a rua’’ (do Congresso ao Palácio do Planalto), disse, reprisando o senador Jorge Bornhausen (SC), presidente do partido.
  Aleluia admite que os seis governadores do PSDB e o único do PFL possam ter um ‘‘diálogo administrativo’’ com Lula, mas o papo acaba aí. E insiste: os contatos políticos entre partidos devem ser feitos dentro do parlamento. Mesmo assim, desconfia: ‘‘Temos de estar atentos para não permitir que o governo use a oposição, dividindo o apoio a projetos impopulares’’, diz.
  Essa advertência também está na ponta da língua de Tasso, que a colocou na lista de suas prioridades – a oposição até pode colaborar com votos para aprovar projetos impopulares, mas não vai dar sua chancela antecipada – como fez no primeiro mandato de Lula, no caso da reforma da Previdência – para aliviar o ônus do PT.
  O presidente do PPS, deputado Roberto Freire, também acha que o diálogo da oposição com o governo tem de se dar no Congresso, mas diz que não há como recusar um eventual convite de Lula para conversar. ‘‘Não se pode recusar o convite de um presidente’’, pondera. Ele quer propor a formação de um bloco parlamentar contra o governo, a quem imputa supostos vislumbres ‘‘golpistas’’.

Chavismo na cara – Freire lembra que Lula se negou a assinar o compromisso de que não convocaria uma Constituinte. ‘‘O risco de chavismo está na cara’’, denuncia. Ele reclama, também, que o governo impôs o primeiro obstáculo às conversas com a oposição quando petistas voltaram a atacar a imprensa. ‘‘Vamos ter grandes dificuldades’’, preconiza.
  Os que admitem conversar, no entanto, acham que o primeiro lance tem de partir do governo. No início da semana, Serra e Aécio bateram nessa tecla; nos dias posteriores, seus seguidores os repetiram. Nárcio vai mais longe: diz que o primeiro governo Lula descumpriu vários acordos firmados com a oposição. ‘‘Lula vai ter de mudar essa postura para ter uma boa relação com a oposição’’, afirma ele.
  Serra também garantiu que o PSDB não vai apostar no ‘‘quanto pior, melhor’’. Bem entrosado, Nárcio repete a glosa: ‘‘Vamos ser duros contra o governo, mas não podemos ficar contra o País’’, sinaliza.
  Jutahy confirma a influência dos novos governadores sobre a base parlamentar do PSDB ao lembrar um acordo entre Serra e Aécio – o paulista indica o líder na Câmara, que deve ser Antônio Carlos Pannunzio (SP), e o mineiro, o 1º vice-presidente da Mesa da Câmara, que deve ser Nárcio. O acerto pressupõe a adesão a uma negociação com o governo para compor a Mesa da Câmara.
  Não seria difícil a Serra e Aécio induzir a essa negociação. Primeiro, porque São Paulo e Minas têm 25 dos 65 deputados do PSDB; segundo, porque eles contariam com a força política de seus governos. Já Freire fala em disputar a Mesa contra o futuro bloco aliado governista, proposta que tem boa chance de ser apoiada pelo PFL. Eles têm até fevereiro para acertar os ponteiros.

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