São Paulo - Maniqueísmo era a palavra da moda: quem não estava a favor seguramente estava contra. Assim era o Brasil de março de 1964, dividido entre bons e maus, entre defensores do imperialismo ianque, à direita, e aos cultivadores do ouro de Moscou, à esquerda, e o que seria o Brasil real, espremido no meio, entre mar e rochedo. Desde a redemocratização de 1945, o Brasil era assim. Em março de 1964, no olho do furacão, os dois lados deixaram os escrúpulos de lado e se declararam prontos para a confrontação final.
Em março de 1964 não houve uma revolução: foi um golpe de Estado clássico, do tipo que pontuou a história dos países subdesenvolvidos, embora, no caso, aplicado a um País que ganhava complexidade econômica e social. Os dois lados, aliás, pensavam em dar um golpe e ambos ambicionavam travestir o golpe que tramavam com a roupagem heróica de uma revolução.
Março de 1964 não foi um enfrentamento do bem contra o mal, de defensores do povo contra seus detratores. Ali chegaram ao ponto crucial de ebulição dois modelos arcaicos e autoritários um de esquerda, com raízes populistas e corporativas, outro de direita, com vínculo liberal selvagem e excludente. ''Em 64, não houve um conflito entre uma idéia democrática e uma idéia autoritária, como os dois lados tentaram fazer crer, mas duas formas de autoritarismo'', define o filósofo José Arthur Gianotti.
Ambos quiseram encarnar o bem. De um lado, o voluntarista projeto de poder autoritário e populista da esquerda, com raízes marcadamente corporativas e dono de um modelo que faria o Brasil perder o bonde da modernidade. E de outro um modelo militar autoritário estimulado por uma direita incapaz de ganhar nas urnas. ''O Brasil não tinha uma opção boa em 1964'', constata o cientista político Leôncio Martins Rodrigues. ''Venceu a direita e o golpe representou um terrível retrocesso; se vencesse a esquerda, haveria outro retrocesso, talvez pior, aprofundando o modelo populista. Eram opções dramáticas'', atalha Leôncio.

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