Globalização é desigual, diz embaixador Dauster
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domingo, 21 de fevereiro de 1999
Antonio Carlos Seidl Agência Folha 
A solução duradoura para a economia brasileira está na busca de isonomia entre países ricos e países pobres no comércio mundial. A opinião é do embaixador Jorio Dauster, 61, que acaba de deixar, depois de oito anos, a chefia da missão diplomática brasileira junto à UE (União Européia), em Bruxelas.
A globalização tem sido assimétrica, pois criou dois planetas. Um que interessa aos países ricos, onde as regras de competição livre têm de valer. E outro que interessa aos exportadores de produtos agrícolas e de outras matérias-primas, onde o jogo é diferente, prevalecendo o protecionismo dos ricos. O exemplo mais recente desse fenômeno foi a imposição pelos EUA de uma sobretaxa para a entrada do aço brasileiro no mercado norte-americano.
O embaixador Dauster, que em sua longa carreira pública já foi chefe do escritório do IBC (Instituto Brasileiro do Café) em Londres (85-87), presidente do IBC (87-90) e embaixador extraordinário para a negociação da dívida externa brasileira (90-91), está cotado para assumir a presidência da Companhia Vale do Rio Doce.
Convidado por Benjamin Steinbruch, Dauster aguarda a aprovação de seu nome pelos demais acionistas da ex-estatal. Já aceitei o convite. Será um grande desafio dirigir a maior empresa privada do País. Leia, a seguir, trechos da entrevista.
PerguntaA que o senhor atribui a crise de confiança no Brasil?
DausterO Brasil assumiu uma postura muito mais visível em termos econômicos e financeiros no mundo. Há 15 anos, na época da crise da dívida, o País podia morrer como um índio velho. Ninguém se aproximava para saber o que estava sentindo. Hoje, com a crescente presença de bancos norte-americanos e europeus no Brasil, é óbvio que qualquer turbulência no País passa a afetar grandes instituições. O problema é que, para a maioria dos estrategistas das instituições financeiras, todos os emergentes estão no mesmo balaio.
PerguntaHá, então, uma contradição entre a presença crescente de grupos estrangeiros no Brasil e a falta de conhecimento das características do País?
DausterO impacto do anúncio da moratória de Minas Gerais nas Bolsas internacionais é um exemplo disso. O mercado entrou em pânico como se o Programa de Estabilidade Fiscal tivesse ido para o brejo por causa de uma atitude isolada. Há analistas nos mercados europeus que conhecem profundamente o Brasil, mas a grande massa de operadores, essa rapaziada que trabalha com bilhões de dólares como se fosse joguinho de computador, desconhece o País.
PerguntaOs mercados não estariam, portanto, refletindo a realidade econômica dos países emergentes?
DausterEsse é que é o diabo. Estamos lidando com uma enfermidade que nos ataca de forma violenta. É o vírus do tratamento de países emergentes descolado da verdade econômica. O governo brasileiro está absolutamente empenhado na correção do desvio fiscal. No mesmo dia do anúncio da mudança cambial, o Congresso aprovou medidas fiscais importantes.
PerguntaComo repercutiu na União Européia a mudança cambial no Brasil?
DausterUm dos principais jornais belgas disse na primeira página que o Brasil se oxigenou com a nova política cambial. O jornal qualificou a desvalorização de inevitável e correta. O problema é que desde o México nenhum país emergente conseguiu fazer uma desvalorização controlada. Em 1992, a Inglaterra desvalorizou a libra esterlina em 5%. Nada aconteceu. Os analistas financeiros consideraram a desvalorização de bom tamanho. A vida continuou.
PerguntaPor que a mudança cambial no Brasil provocou tanta incerteza e instabilidade nos mercados?
DausterPorque há, hoje, uma extraordinária aversão ao risco. Houve perda de liquidez sem paralelo a partir da crise da Rússia.
PerguntaO que significa a criação do euro para o Brasil?
DausterA introdução do euro é extremamente positiva a longo prazo. Vejo muita discussão sobre o impacto do euro no comércio exterior do Brasil a curto prazo. Isso é irrelevante porque, a curto prazo, o problema das exportações brasileiras é a queda dos preços das matérias-primas e a redução da demanda internacional para os produtos brasileiros. A demanda ainda sofre os efeitos das crises asiática e russa e da redução do nível da atividade econômica na Europa. O efeito do euro sobre o comércio exterior no curto prazo é irrelevante.
PerguntaE a longo prazo?
DausterA questão fundamental é que há 60 anos havia uma única moeda forte no mundo, o dólar. Isso permitia que os EUA fizessem a política econômica que quisessem e o mundo tinha de se adaptar a ela. Com o surgimento do euro, o mundo terá uma moeda realmente alternativa ao dólar dentro de cinco anos, no máximo. Os agentes econômicos, desde os bancos centrais até o investidor privado, vão ter uma alternativa para suas aplicações financeiras. A partir daí, o mundo vai mudar. A liberdade absoluta que os EUA têm atualmente de conduzir a sua política econômica calcada apenas nos interesses internos, sem maior preocupação com o restante do mundo, vai desaparecer.
PerguntaComo estão as negociações para a criação da área de livre comércio entre o Mercosul e a União Européia?
DausterA posição do Brasil é buscar um paralelismo com a negociação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas). Mas a condição primordial para o avanço nas negociações é a retirada das barreiras aduaneiras aos produtos agrícolas e siderúrgicos e aos calçados nos EUA e na Europa. A globalização vem sendo feita de uma forma assimétrica. A globalização só funciona bem naqueles produtos e áreas de serviços que interessam aos países ricos. Quando se trata de agricultura e de siderurgia o jogo é diferente. É por isso que todos os países emergentes que seguiram o Consenso de Washington estão com crescentes déficits na balança comercial e em transações correntes. Por isso, é preciso recorrer ao capital especulativo, que, como as andorinhas, bate asas no primeiro estouro.
PerguntaA solução é a reforma do sistema financeiro, conforme propôs o premier britânico Tony Blair, para conter a mobilidade dos capitais especulativos?
DausterO Brasil tem interesse na redução dessa mobilidade alucinada do capital especulativo. Mas nem a melhor arquitetura financeira do mundo resolve o problema fundamental do País, que é uma tendência ao desequilíbrio no balanço de pagamentos. Isso advém do fato de que as exportações brasileiras possíveis encontram resistências, tais como tarifas e outros mecanismos protecionistas.


