Rio de Janeiro - Gilberto Gil é ministro da Cultura desde o dia 2, mas se recusa a deixar de ser artista. Ontem, em sua primeira visita oficial ao Rio, vestiu roupa branca e sandálias, sambou na Estação Primeira da Mangueira, cantou o samba-enredo da Império Serrano com componentes da escola, bebeu chope - e disse estar ''flutuando'' - posou para fotos e foi muito aplaudido. A rotina, diz, pouco mudou desde que assumiu o cargo porque ''o ambiente é o mesmo''. Descontraído, sambou para fotógrafos. Garante estar se sentindo mais jovem no cargo.
''Muita gente me perguntou: 'Vai aceitar um ministério agora?' Estou com 60 anos, é hora de enjeitar parada? Antes de Lula me convidar, eu estava com uma dor de dente que não passava e outra no dedão do pé. Entrei nessa fogueira e não senti mais nada'', disse ao sambista da Império Wilson Neves, seu amigo. Acompanhado pelo antecessor no cargo, Francisco Weffort, e pela secretária de Cultura do Estado do Rio e namorada deste, Helena Severo, Gil anunciou a indicação de Orlando Sena para a Secretaria do Audiovisual, durante visita ao Centro Cultural Cartola, na Mangueira.
Lá, foi recebido por dona Zica, mulher do compositor homenageado. O Ministério patrocina com R$ 400 mil as obras de construção da sede do centro, que vai abrigar aulas de música, teatro e capoeira. Gil tomou suco de maçã e comeu manga em um café-da-manhã improvisado, que fez de pé. ''É a minha fruta favorita'', jurou ele, que já desfilou três vezes pela verde-rosa e foi homenageado pela escola em 1994.
Na Império Serrano, o Ministério também está investindo R$ 250 mil na reforma da quadra de ensaio, para ganhar isolamento térmico e acústico. O novo ministro considera as iniciativas importantes para a integração social dos jovens das comunidades. ''Atividades culturais expressivas em locais de risco trabalham a inclusão da meninada e a afastam da contaminação do crime, em uma parceria com a Secretaria Nacional de Segurança Pública. Espero que esses centros de memória e desenvolvimento das artes sejam os dois primeiros embriões de projetos semelhantes'', disse.
Gil afirmou que já se acostumou a ser chamado de ministro e não se incomoda. Mas prefere se referir ao ex-ministro Weffort, - que elogiou por ser ''o único a fazer a transição no campo'' - como ''professor''. ''Vou lhe chamar de professor'', afirmou o músico. ''É o que sou. Estava ministro por oito anos, mas sou professor'', respondeu Weffort, que vai em junho para os Estados Unidos, onde voltará a dar aulas de Ciência Política, na Universidade Notre Dame, em Indiana.
O ex-ministro afirmou que continua amigo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com quem fundou o Partido dos Trabalhadores, em 1980. Eles se distanciaram no governo Fernando Henrique Cardoso. ''Eu me considero amigo do Lula, como espero que ele me considere seu amigo. Conheço Fernando Henrique desde 1954 e o Lula desde 1978. Eu o ajudei a fundar o PT em 1980.'' Weffort comeu salgadinhos e bebeu dois copos de chope na Império Serrano, ao lado do sucessor. Gil bebeu um só, mas sentiu. ''Cerveja é fogo: tomei um copo e já bateu. Fico flutuando'', comentou, rindo.

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