Garotinho apóia Lula mas faz exigências
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 09 de outubro de 2002
Murilo Fiuza de Melo<br> Agência Folha 
Rio de Janeiro Depois de dizer que só apoiaria Luiz Inácio Lula da Silva (PT) se ele abandonasse a aliança com o senador José Sarney (PMDB-AP), o candidato derrotado do PSB à Presidência, Anthony Garotinho, se rendeu a pressão de seu partido e anunciou ontem que apoiará o petista no segundo turno. O ex-governador do Rio disse, porém, que Lula terá palanque dividido no Rio. Ele e a mulher, a governadora eleita Rosinha Matheus, se recusam a pedir votos ao lado da governadora Benedita da Silva (PT), que coordenará a campanha de Lula no Estado.
O PT do Rio jogou muito baixo [na campanha eleitoral]. Chamaram a Rosinha de cara-de-pau, mentirosa e até expressões chulas foram usadas contra ela e contra mim. Eu não quero conversa com o PT daqui. A minha questão é nacional. Nós entendemos que a questão nacional é prioritária, afirmou.
Garotinho e Rosinha se reuniram de manhã, por uma hora, com o presidente nacional do PSB, Miguel Arraes, e o vice, Roberto Amaral. O encontro foi na casa de Garotinho. Arraes disse que não anunciaria oficialmente o apoio ao PT porque a decisão cabe à Executiva Nacional do PSB, que se reúne hoje em Brasília.
Arraes e Garotinho deixaram claro que o apoio do PSB a Lula não será incondicional. Os socialistas pretendem marcar posição e, para tanto, entregarão ao PT um documento exigindo que Lula se comprometa com cinco pontos do programa do PSB.
O partido quer que, no segundo turno, Lula defenda o rompimento das negociações para a criação da Alca (Área de Livre Comércio das Américas), o salário mínimo de R$ 280 já em maio do ano que vem (uma das principais bandeiras eleitorais de Garotinho), a não-submissão ao FMI (Fundo Monetário Internacional), a reestruturação das Forças Armadas e a suspensão do acordo internacional para o uso da Base de Alcântara (MA) pelos EUA.
Garotinho, que planeja se firmar como um dos principais candidatos à sucessão presidencial de 2006, disse que o descumprimento dos cinco pontos, num eventual governo Lula, poderá levar o PSB para a oposição. Ele afirmou, no entanto, que o mais importante hoje é eleger Lula e que o documento não é condicionante ao acordo com o PT. Não há dúvidas que nós não concordamos com o PT, mas também não há dúvidas que, entre o PT e o PSDB, nós não temos escolha, ficamos com o PT, disse.
Ele afirmou que poderá gravar uma participação no programa de TV de Lula, mas, ao explicar como será a campanha do petista do Rio, disse que não aceitará interferências de Benedita e da direção do PT no Rio.
O ex-governador admitiu que não obrigará os prefeitos da sua base de aliados no Estado, incluindo os do PSB, a seguir a decisão de apoiar o petista. Eles poderão ficar neutros. O que não podem é ficar com o [José] Serra, afirmou.
Dos 75 prefeitos que se aliaram a Rosinha, 42 são do PSB e 22 do PPB. Como a reportagem divulgou hoje, há muitos prefeitos do próprio PSB, como os de Angra dos Reis, Miguel Pereira e Barra Mansa, que se recusam a fazer campanha para Lula, por divergirem localmente do PT.


