Elas são festeiras e bem que poderiam só continuar os passeios ao shopping e as aulas de inglês, ginástica, tênis e natação. Mas querem mais. Querem discutir política e ajudar a conscientizar o eleitor sobre a importância do voto. E elas ainda nem têm idade para votar. Sete garotas de Londrina, entre 13 e 15 anos, estudantes de escola particular e de famílias de classe média, estão dando um exemplo de cidadania. As adolescentes fundaram um grupo para debater o processo eleitoral e distribuir um manifesto que questiona: ‘‘Você se deixa enganar?’’ O documento lista dez itens que estão no livro ‘‘Como não ser enganado nas eleições’’, do jornalista Gilberto Dimenstein, e serve de alerta para reflexão.
Vívian Mello, 14 anos, uma das idealizadoras do grupo juvenil Pró-Cidadania, explica que as amigas não se conformam com as desigualdades e as injustiças sociais. ‘‘E pensamos: vamos ficar só reclamando sem fazer a nossa parte? Foi aí que a gente resolveu juntar o grupo. Não dá para ficar quieta’’, garante. ‘‘As pessoas dizem que a gente é revoltada com a vida, mas é preciso tentar mudar’’, reforça a amiga Tatiana Benevenuto, 14 anos.
A escolha do período como proposta para iniciar a discussão não podia ser mais adequada. ‘‘Não basta só ficar falando mal dos políticos. É preciso debater’’, prega Tatiana. Ela recorre a um velho discurso pragmático - se cada um fizesse a sua parte o mundo não estaria como está - para reforçar a tese. ‘‘Até mesmo nós, que somos de classe média, e muitas vezes queremos um monte de roupa nova, devemos repensar nossas atitudes’’, admite.
Mas o processo de convencimento da importância de debates como esse não é fácil. Alguns colegas do colégio desdenharam a ação das garotas. ‘‘Um amigo nosso tem uma máquina de xerox e a gente pediu que ele fizesse cópias do manifesto para distribuirmos, mas ele se recusou. Disse que não vai dar em nada’’, contou Vívian.
As meninas tiraram dinheiro da mesada para fazer as cópias e estão realizando a distribuição em escolas públicas e aos veículos de comunicação. O documento também estará na Internet.
Para elas, além das desigualdades sociais, o que mais assusta são os problemas na saúde e na educação. Se fossem políticas - e as estudantes afirmam que pretendem ser - priorizariam a educação e a saúde. ‘‘Eu aumentaria o salário dos professores. É preciso que os governos entendam que se as pessoas tivessem estudo, muita coisa mudaria na sociedade’’, afirmam as amigas. A mais velha do grupo, Raquel Andrade, 15 anos, faz até planos para estrear na política como prefeita. ‘‘Para saber como é. E esse grupo é uma preparação’’, afirma.
Elas pregam o voto consciente e dizem não ao voto nulo. ‘‘Tem que escolher bem, pesquisar. A gente que lutou tanto pela democracia não pode perder essa oportunidade’’, diz Tatiana, com um discurso que parece da geração que lutou pelo fim da ditadura. Vívian diz que voto em branco é pior ainda. ‘‘É importante escolher alguém. Nem que seja o menos pior’’, explica.
O grupo quer dar vôos mais altos. E se preparam para disputar as eleições de representante de classe. ‘‘Agora que o grupo está montado vamos em frente’’, afirmam. Além de Vívian e Tatiana, participam Bruna Araújo, 14; Amélia Machado, 14; Fernanda Santana, 14; Natália de Castro, 13.

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