Gafe do Itamaraty tumultua negociação
Gafe do Itamaraty tumultua negociação
Itamaraty divulga documentos sigilosos sobre acordo Peru-Equador, constrange o presidente e dificulta acordo
Agência Estado
Agência EstadoSobremesa indigestaFujimori, FHC e Alarcón dão as mãos após almoço no Alvorada: presidente desautoriza documento sobre propostas do Brasil Deveria ter sido uma iniciativa ousada do governo brasileiro, para encerrar mais de um século e meio de guerras entre Peru e Equador, mas a divulgação, por engano, ontem, de dois documentos secretos de negociação transformou o almoço do presidente Fernando Henrique Cardoso com os chefes de Estado peruano, Alberto Fujimori, e equatoriano, Fabian Alarcón, num incidente diplomático.
O erro foi provocado por um funcionário que enviou para divulgação à imprensa documentos escritos apenas para os olhos de Fernando Henrique. Os textos contam as propostas secretas para um acordo de paz, as reações positivas e negativas dos governos peruano e equatoriano, e as delicadas fórmulas diplomáticas para convencer os dois lados a fazerem concessões.
Fernando Henrique disse que desconhecia a existência dos documentos. Qualquer documento que se refira, direta ou indiretamente, ao encontro está desautorizado e não reflete, de forma alguma, o teor das conversações havidas, nem a opinião do governo brasileiro sobre os temas tratados, disse, lendo um comunicado redigido de última hora. Ele não soube explicar o que houve e respondeu às perguntas da imprensa com irritação: Não devemos perder tempo com o que não existe - vamos ganhar tempo com o que existe, que é a vontade clara de avançar na paz.
O encontro de ontem foi marcado na semana passada, e tanto o local, quanto a data foram cuidadosamente escolhidos. Seria um almoço no Palácio da Alvorada, residência oficial de Fernando Henrique, seguido de uma entrevista e fotos no gramado. A idéia era dar um tom de informalidade, necessário para desarmar os espíritos nas difíceis negociações de paz. E tentar resolver inúmeros impasses, antes de agosto: data da posse do novo governo equatoriano, eleito domingo.
Os jornalistas que acompanhavam as três delegações foram encaminhados a uma sala no portão de entrada do palácio, para esperar o final do almoço e, no máximo, um tradicional comunicado sucinto sobre os esforços para fortalecer um ambiente de distensão - sem dar qualquer detalhe. Nada mais seria dito para não quebrar a promessa, de manter sigilo absoluto, até a assinatura do acordo de paz.
Desse pacto de silêncio participaram tanto Peru e Equador, que disputam algumas centenas de quilômetros quadrados de fronteira na selva amazônica, quanto os quatro países garantes (Brasil, Argentina, Chile e Estados Unidos), encarregados de evitar outras guerras, como as de 1981 e 1995, responsáveis pela morte de cerca de 600 pessoas. Qual não foi a surpresa, ontem, ao se descobrir que a assessoria de imprensa do Palácio do Planalto divulgara documentos, com o timbre do mais que cauteloso Itamaraty, com as propostas secretas para contornar obstáculos, sem ferir os brios de militares e políticos peruanos e equatorianos.
O pior de tudo não foi a divulgação de propostas feitas pelos garantes e conhecidas apenas pelos negociadores dos seis países envolvidos nesse processo, comentou um diplomata latino-americano. A principal gafe é que os textos tornam públicas as opiniões dos garantes e do governo brasileiro sobre o Peru e o Equador, algo que nem peruanos, nem equatorianos sabiam ou tinham que saber, acrescentou.
O primeiro documento relata a sugestão, feita por Fernando Henrique, a Fujimori e Alarcon, no último dia 15, de transformar o Alto Cenepa (250 quilômetros quadrados de território minado em disputa) numa reserva ecológica, administrada por uma comissão mista do Peru e do Equador. Numa linguagem transparente demais para ser diplomática, esclarece que essa proposta (discutida pelos garantes numa reunião na semana passada) tem o mérito de atender ao desejo equatoriano de camuflar a soberania peruana na região e afastar o temor peruano de uma eventual erosão disfarçada de sua soberania.
Pior: o documento explica que esse parque seria uma capa para assegurar a exclusão de todas as unidades militares à região, negando assim acesso à zona de conflito de 1995 às Forças Armadas. Além de tornar pública a fórmula para calar os generais, o texto ainda comete uma indiscrição: conta que o vice-chanceler do Peru, Hugo Palma, manifestou uma reação inicial muito negativa. O Itamaraty reagiu, lembrando ao embaixador peruano que o presidente do Brasil havia sugerido a idéia do parque aos presidentes do Peru e do Equador, que a aceitaram em princípio. Isso levou Palma a rever sua posição.
O documento ainda tem uma nota de pé de página, avisando que nos pronunciamentos públicos, não deve ser feita menção ao nome das localidades envolvidas - entre elas, o Alto Cenepa, cujo futuro foi discutido exaustivamente. Já o segundo texto lista os argumentos que devem colocados a Fujimori e Alarcon, entre eles a necessidade de uma atitude mais flexível por parte do Peru.
Fujimori e Alarcón, que no final do almoço posaram com Fernando Henrique de mãos dadas e erguendo os braços em sinal de vitória, tentaram minimizar a crise, dizendo que o encontro marcou um avanço e que uma reunião, marcada para 9 de junho em Buenos Aires, foi antecipada para os próximos dias 4 e 5. Mas ambos ressaltaram que nada podiam dizer porque, apesar de os documentos sigilosos serem agora de domínio público, ainda existe o compromisso de manter silêncio sobre o conteúdo das negociações.





