O ex-prefeito e ex-vereador de Londrina Gerson Araújo (PSDB), que perdeu o mandato legislativo em junho após ter o diploma cassado, foi indiciado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) por suposta intervenção na venda de um terreno em frente ao Autódromo Ayrton Senna para a construtora Iguaçu do Brasil. Além do ex-prefeito, o ex-chefe de gabinete Willian Polachini de Godoy também foi indiciado.
A Iguaçu do Brasil é acusada de lesar clientes em Londrina e 13 pessoas foram indiciadas por suspeita de estelionato e formação de quadrilha em dez ações propostas pelo Ministério Público em março deste ano.
Araújo e Polachini foram indiciados em inquérito concluído recentemente. O delegado Gaeco, Alan Flore, identifica dois momentos em que pode ter havido interferência na negociação.
O primeiro ocorreu quando Araújo assumiu a prefeitura interinamente em 2012, após Barbosa Neto (sem partido) e seu vice, Joaquim Ribeiro (sem partido), serem afastados do Executivo por suspeita de irregularidades.
Em outubro daquele ano, segundo Flore, Polachini entrou em contato com um representante dos proprietários do terreno alegando que a prefeitura tinha interesse naquela área para construir uma vila olímpica. "Ele disse que não sabia qual seria o trâmite, se haveria aquisição ou seria desapropriada. Todos sabem que o processo é por desapropriação", disse o delegado.
Ainda segundo ele, Polachini teria questionado se já havia alguma negociação em andamento e até orientando que, em caso positivo, seria mais vantajoso, já que conseguiriam um preço mais justo e o trâmite seria mais simples.
A ligação ocorreu num momento de entrave entre a família e a construtora, diante da falta de apresentação de garantias por parte da compradora. "Essa ligação teve força decisiva para incutir na vítima um temor de que sua área fosse objeto de desapropriação, que teria um processo moroso e com avaliação abaixo do valor de mercado", diz Flore.
O segundo fato ocorreu em 2013, quando Araújo havia retornado para o Legislativo. Em fevereiro daquele ano, o então vereador assinou requerimento solicitando ao Executivo que declarasse a área como de interesse público para desapropriação.
O documento jamais foi protocolado na CML, mas acabou instruindo uma ação ajuizada pela Iguaçu do Brasil contra os proprietários, cinco dias após sua elaboração, para rever os termos do contato. Naquele momento, a construtora não havia pagado nenhuma das parcelas, já vencidas. Em depoimento no Ministério Público, eles não souberam explicar como um requerimento que não tramitou saiu do gabinete.
O delegado explica que a análise da sequência cronológica dos fatos e a relevância dos atos para que a construtora pudesse alcançar seus interesses levou ao indiciamento de Araújo e Polachini por participação no crime de estelionato. Flore ressalta, entretanto, que não foi identificada a obtenção de vantagem ilícita por parte ambos.

OUTRO LADO


Araújo admite que não havia planos da administração municipal daquela área e que o contato telefônico de Polachini com os proprietários foi travado por conta própria. "Ele (Polachini) entrou em contato com uma senhora, ou ela o procurou, e estabeleceram uma conversa em que a mulher achou que ele estaria facilitando a possibilidade de vender para essa empresa, mas ele fez por inciativa própria e não tínhamos a menor ideia do que estava acontecendo", diz.
Sobre o requerimento, ele admite ter assinado, mas desistiu de apresentá-lo por considerar sem sentido. "Só que deveria ter rasgado na hora. Alguém entrou no gabinete, pegou o documento, xerocou e entrou com o documento nesse processo", afirma.
Polachini assumiu que a ideia de uma vila olímpica partiu dele, assim como o contato com a família. "Fui atrás para descobrir de quem era (o terreno), mas não houve interesse da proprietária. Foi uma conversa rápida. Passou quinze dias, ela me retornou com interesse em fazer negociação com a prefeitura, mas não havia estudo algum", diz.
Sobre o requerimento, ele também não sabe dizer como saiu do gabinete do vereador. "Só hoje há controle sobre quem entra ou sai do Legislativo", afirma. Ele diz ainda que não teve acesso aos autos para poder se defender adequadamente.

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