''Não resta dúvida de que havia uma negociação, só não se sabe ainda de quem com quem.'' A declaração do coordenador do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), promotor Cláudio Esteves, ontem, vai ao ponto central daquele que se tornou o principal imbróglio no inquérito instaurado semana passada com a prisão do ex-assessor do deputado federal Barbosa Neto (PDT), Luciano Ribeiro Lopes. Tanto o promotor quanto o delegado do caso, Alan Flore, são taxativos em não apontar indícios de extorsão ou de suborno quando questionados sobre os R$ 23 mil localizados com Lopes, na última segunda, no momento do flagrante. Ao menos parte da indefinição pretende ser dirimida por ambos, hoje à tarde, às 14 horas, com novo depoimento do ex-assessor, posto em liberdade provisória na última sexta.
Além de Lopes, já depuseram o deputado federal Alex Canziani (PTB), seu assessor parlamentar Hélio Senedese Junior e o advogado do petebista, Maurício Carneiro - os três, ouvidos no último domingo. Esteves se mostrou surpreso com a declaração do advogado do parlamentar, à imprensa, no sentido de que a prisão de Lopes teria sido ''irregular porque não existia o estado de flagrância''. ''Não comentamos opiniões de advogados'', resumiu o promotor. Por outro lado, o coordenador do Gaeco opinou sobre declaração de Carneiro, reproduzida ontem pela FOLHA, em que o advogado admitira que não seria possível confirmar que a extorsão de fato existira. ''Existe o inquérito policial, provavelmente vai ter processo penal, e ele (Lopes) vai responder em tese a crime de extorsão'', comentou Carneiro, na ocasião. ''É estranho que o advogado diga que isso não aconteceu, quando seu cliente (Canziani) afirma que, naquela tarde, o Luciano exigiu dinheiro'', avaliou o promotor. ''Mas Gaeco não tem uma constatação final'', ressalvou.
A FOLHA teve acesso aos três depoimentos prestados no domingo. No mais volumoso deles, Canziani é categórico em ressaltar que o pedido de dinheiro - suposta e inicialmente R$ 500 mil, o que teria reduzido para R$ 200 mil - teria partido sempre de Lopes, que alegava ''ter em seu poder um material contra Barbosa''. Em outro trecho do depoimento, o petebista cita que o ex-assessor teria proposto também revelar ''quem havia lhe pago para realizar as denúncias anteriores'' contra o pedetista.
Em coletiva domingo, porém, Canziani colocou, além do teor do depoimento, que Barbosa teria falado em eventuais ''serviços de consultoria'' ao ex-assessor, dentro dos R$ 200 mil solicitados. ''Pois nesse valor que seria pago a ele, além de dizer quem pagou, ele também disse que daria algumas sugestões, idéias para a campanha.''
Ontem, Lopes se afirmou ''magoado'' com Canziani, com quem trabalhou por 10 anos, e reafirmou que os valores foram sugeridos e oferecidos pelos dois deputados, que negam. ''Tanto o Alex sabe que não extorqui ninguém que colocou no depoimento pedido do Barbosa 'Faz o Luciano levar o dinheiro'. Demoraram uma semana para inventar isso, mas agora quero que a apuração vá às últimas consequências.''

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