Após agentes da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) terem denunciado publicamente na Câmara de Londrina, no final do ano passado, suposta pressão para arrecadar multas, uma nova denúncia envolvendo este setor veio à tona: um suposto esquema de cancelamento de multas de trânsito que beneficiariam pessoas ligadas a assessores da CMTU. A nova denúncia é alvo de investigação iniciada em dezembro do ano passado pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), órgão ligado ao Ministério Público (MP) estadual.
Ontem pela manhã, promotores de Justiça e policiais cumpriram mandado expedido pela 2 Vara Criminal e apreenderam na companhia mais de 20 caixas com autos de infrações cancelados nos últimos cinco anos. A operação foi motivada por informações de que esses documentos poderiam ser extraviados justamente para dificultar ou impossibilitar a investigação do MP.
Até agora os promotores ouviram sete agentes de trânsito que relataram pelo menos dois casos irregulares de cancelamento de multas. Um deles envolve o assessor técnico da Diretoria de Trânsito, Rogério Duque. Após sua mulher ter sido multada em um veículo Renault Logan, Duque teria pressionado o agente autor da multa a cancelar o auto de infração, o que teria ocorrido. A coordenadora de trânsito, Maria do Socorro, segundo o depoimento dos agentes, teria incentivado tal situação.
O coordenador do Gaeco, promotor Cláudio Esteves, disse que a investigação alcança não apenas o autor propriamente dito do cancelamento. ''Investigamos não apenas o cancelamento, mas quem determinava o cancelamento dessas multas'', declarou. ''A intenção é saber se essas situações eram praxe na CMTU.'' Esteves evitou comentar detalhadamente a investigação, acrescentando que os autos de infração cancelados apreendidos vão corroborar as declarações dos agentes.
''Trata-se de um fato de muita gravidade porque o londrinense não pode vislumbrar o cancelamento de multas dentro da CMTU, que tem o dever de fiscalização, quando o próprio londrinense tem sido diariamente multado'', afirmou o promotor Renato de Lima Castro, que participou da operação. ''Minha afirmação não se aplica aos funcionários probos da companhia.''
Até dezembro do ano passado, as multas eram emitidas por meio de um talonário de papel e podiam ser canceladas em caso de erro de preenchimento pelo agente, como anotar equivocadamente o tipo de infração ou a cor do veículo, por exemplo. O próprio agente anotava a rasura e, imediatamente, lavrava novamente a multa com os dados corretos. Porém, segundo depoimento de agentes, um motorista multado, mas com ligações com algum diretor ou funcionário da companhia, poderia solicitar o cancelamento irregular da infração. Ao MP, um agente confessou ter cancelado uma multa de trânsito, afirmando que ''aos fiscais cumpre somente acatar a determinação superior; que se isso não ocorre, o fiscal passa a sofre pressões e perseguições''.
O assessor de imprensa da CMTU, Leandro Rosa, disse que a companhia não se pronunciaria sobre as denúncias contra os dois servidores e tampouco poderia contactá-los para informar sobre o pedido de entrevista.

mockup