Futuro governo nasce na encruzilhada
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sábado, 07 de maio de 2016
Edson Ferreira<br>Reportagem Local 
Ao assumir a Presidência da República, com o provável afastamento de Dilma Rousseff (PT) pelo Senado na votação que poderá instaurar o processo de impeachment, na próxima quarta-feira, o vice-presidente Michel Temer (PMDB) estará diante de profundos desafios políticos/econômicos, sociais e jurídicos. A agenda centro-direita, embasada no programa "Uma Ponte para o Futuro", elaborada pelo grupo do partido aliado a Temer, já é bombardeada pelos movimentos populares, ligados ao PT, como excessivamente neoliberal e restritiva de direitos sociais.
Antes mesmo de assumir o poder, Temer sente o peso das demandas endêmicas do País, como o fisiologismo partidário, cujo principal expoente sempre foi o próprio PMDB. Para ceder às pressões dos partidos que cobram participação no governo, Temer recuou na proposta de extinguir ministérios e o corte será pequeno. No máximo, de 31 para 27. Céticos sobre a redução dos gastos públicos e com a permanência de políticos que compunham o governo Dilma, grupos pró-impeachment, como o Vem pra Rua, já lançam críticas a Temer nas redes sociais. Isso sem falar nos grupos de esquerda, que o consideram um traidor. E ainda há no horizonte a Operação Lava Jato, sobre a qual é impossível fazer previsões a respeito dos próximos investigados.
A estabilidade e os rumos da gestão vão depender da habilidade do peemedebista para enfrentar as mesmas demandas que causaram a queda do governo Dilma. Como são questões ainda sem respostas, caberá a Temer construir a coalização. Porém, nesse início, vai remar na instabilidade do "Triângulo das Bermudas", conforme classificação dada pelo professor de ética e filosofia política da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Clodomiro Bannwart, em alusão ao arquipélago no Oceano Atlântico, perto da costa norte-americana, de difícil navegação.
Temer acaba de perder seu grande aliado, Eduardo Cunha, o que reduz o seu poder de articulação no Congresso Nacional. "Por outro lado", afirma Bannwart, "o Judiciário acabou prestando um favor a Temer na medida que retirou um peso morto do seu neófito governo". Aparecer ao lado de Cunha seria inevitável e, ao mesmo tempo, muito arriscado para o futuro presidente, tendo em vista a baixa popularidade do político.
Segundo o professor de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Renato Perissinotto, o balcão de negócios de Temer com os partidos que apoiam o impeachment é o mesmo que os antecessores mantiveram no Planalto. "Essa situação é incontornável neste sistema político que temos no Brasil", frisa. "Mas precisamos saber também se Temer conquistará o apoio não apenas no Congresso, mas das ruas", continua o professor. "Temos que lembrar, ainda, que o PT não é o PRN de Fernando Collor", diz Perissinotto, sobre o inexpressivo partido no poder naquele ano de 1992, quando Collor caiu.
Perissinotto lembra que parte significativa da sociedade, com poder de mobilização, considera a gestão Temer "ilegítima e nascendo de um golpe". Essa reação popular pode constituir uma grande pressão sobre o governo e sobre os aliados, especialmente em ano eleitoral, quando deputados e senadores medem o seu poder junto às bases, pensando nas eleições gerais, daqui a dois anos. Conforme Bannwart, "o ponto nevrálgico de Temer no Congresso será propor reformas estruturais para a economia que, em boa parte, serão medidas impopulares e a questão é saber se o Congresso estará disposto a tomar medidas amargas no curto prazo, considerando que as eleições municipais se aproximam".
Lava Jato
A terceira fonte de uma possível instabilidade para o governo de Michel Temer, segundo os analistas ouvidos pela FOLHA, é a Operação Lava Jato. Para Perissinotto, "se a investigação continuar com a mesma voracidade, nunca se sabe quem será atingido, pois nomes importantes da oposição já foram citados, como Aécio Neves, além do próprio Temer".
Clodomiro Bannwart afirma que a repercussão das manifestações sociais abertas em 2013 tende a continuar. "A mudança de governo não significará que a temática da corrupção foi estancada. O consórcio de poder PT, PMDB e PP alvejado na Lava Jato apenas deixará de fora o PT, pois PMDB e PP se fortalecem neste momento assumindo o governo, mas não deixam de ser alvos da Lava Jato, o que os enfraquece", argumenta.


