Futuro da Lava Jato depende da participação popular, diz delegado da PF
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sábado, 18 de maio de 2019
Pedro Moraes - Grupo Folha 
Você gostaria de estar trabalhando na Lava Jato?
Eu gostaria, sim. Mas, para voltar, eu teria que pedir e, pessoalmente, me sinto indignado com isso. Também é preciso lembrar que ninguém pediu para eu voltar. Se eu entrasse nesse trabalho, ia querer apurar tudo. É o que eu já brigava com o Alberto Youssef, quando eu estava na ativa: uma delação deve entregar todo o entorno.
Você chegou a ser acusado de perseguição enquanto investigava o Youssef. Você considera que tenha ultrapassado os limites?
Eu fiquei indignado de ficar sabendo que ele estava mentindo, ocultando dinheiro. Quando o acusei e afirmei que teria que entregar todo o sistema, ele passou a me chamar de mentiroso e perseguidor. O fato de um delator mentir expõe a polícia, Ministério Público e o próprio juiz. Se um delator tem risco de morrer, deve entrar no programa de proteção à testemunha, mas precisa dizer toda a verdade.
Como se sente com o fato de seu trabalho ter dado início a uma operação tão importante?
Me sinto bem, como numa redenção. Sempre busquei apurar a verdade dos fatos e defendi a educação como prevenção. Desde quando trabalhava na Receita Federal como analista, eu já acompanhava casos de irregularidades. Cheguei a responder a um processo porque acessei indevidamente os dados de uma pessoa. Na época, questionei como eu poderia ter cometido um ato indevido se eu tinha uma senha de acesso. Eu sempre gostei de entender o universo de quem eu estava analisando. Já naquela época, em 1991, eu tinha conseguido um recorte da construtora Odebrecht envolvida com a Caixa Econômica.
Você acredita que a lei impõe muitos entraves para o trabalho da investigação?
O que se aprende na faculdade e na academia de polícia é que é preciso apurar a verdade. Por isso eu questiono: para se chegar à verdade real, o povo precisa de transparência ou sigilo? Eu não estou defendendo fazer nada ilegal, mas o que critico é a dificuldade da investigação. Se você for analisar em tese, o sigilo bancário foi construído porque está fundamentado em várias decisões judiciais e naquela questão do sigilo de correspondência tratado na Constituição. A lei não fala em sigilo bancário. No entanto, tivemos tantos entraves para poder investigar e ter autorização para acessar os dados. Se a sociedade estivesse mais instruída, poderia participar da discussão e, provavelmente, não aceitaria isso. Eu brinco que o jornalista tem mais poder que o delegado porque tem o sigilo da fonte, enquanto o delegado não tem. Pesa o fato de termos vivido uma Ditadura Militar. Na época, houve várias arbitrariedades de policiais e, com a nova Constituição, em vez de punir quem cometeu o crime, eles limitaram o poder da polícia. Antes, um mandado de busca e apreensão podia ser emitido por um delegado, hoje não. Outro caso é a condução coercitiva, cujo caminho é a busca pela verdade: ela deve ser feita o quanto antes. Isso é decisão pacificada. Se você quer esclarecer um fato, tem que ser o mais rápido possível. Você tem que ter uma estrutura muito boa para a polícia e transparência.
Hoje, há uma discussão no País sobre a gestão do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras). Em sua opinião é importante que esteja nas mãos do Ministério da Justiça?
A verdade é que a transparência é o fundamental. Em 2010, participei de uma investigação na qual a CGU (Controladoria Geral da União), a Receita Federal, e a Polícia Federal trabalharam em parceria, trocando informações. Naquela época, prendemos um pessoal do Ciap (Centro Integrado de Apoio Profissional). Fizemos um sistema em que todas as decisões tomadas eram compartilhadas entres os membros dos órgãos, inclusive com o juiz Sérgio Moro. O trabalho fluiu e as condenações saíram muito rápido. Foi o que sempre defendi, que as informações precisam ser compartilhadas, para facilitar a investigação do delegado.
O status do policial federal mudou depois da Lava Jato?
O ambiente dentro da Polícia Federal não é bom e precisa mudar muito. O departamento tem um problema sério de ambiente de trabalho – eu já falava que existia esse problema desde 2007. Eu pedia para melhorar o ambiente de trabalho porque havia muito suicídio, muita briga interna. Entre 2012 e 2014, foram 27 suicídios no Brasil, três em Londrina. Um deles na minha equipe. Eu até sugeri fazer um convênio com a UEL (Universidade Estadual de Londrina), mas não quiseram. Não sei se foi por falta de dinheiro. Tenho debatido com colegas aposentados que precisamos nos unir e participar. Sem isso, sempre estaremos suscetíveis a políticos inescrupulosos que ficam fazendo barganha política. Aí que entra a questão da educação cidadã, dê poder ao povo para ele saber exercer. Será que a população concorda com o que estão fazendo no nosso País?
Acredita que a Lava Jato vá ser capaz de depurar a política no Brasil?
A operação foi importante para despertar a sociedade sobre o mecanismo, mas nós precisamos de uma construção cidadã constante, que ainda é muito insipiente. Se não reforçarmos a educação, as coisas não vão melhorar.
A Lava Jato segue descobrindo novos escândalos. Você acredita que a operação pode durar por muito tempo?
Pode sim, mas depende da população. É preciso cobrar e participar. Políticos querendo desqualificar e querendo enterrar, tem todo dia. Isso pode acontecer.


