Funcionário da RF trabalhou para a Kroll
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sábado, 19 de março de 2005
Vannildo Mendes<br> Agência Estado 
Brasília - Relatório da Polícia Federal, ao qual a reportagem teve acesso, mostra que a empresa de auditoria Kroll, que montou no Brasil um estrutura gigantesca de espionagem ilegal, havia cooptado para seus quadros um funcionário público que exerceu uma função estratégica na estrutura da Receita Federal: Deomar Vasconcellos de Moraes, que até o final de 2002 coordenava a unidade central da Inteligência do órgão. ''Comprovou-se que Deomar possui vínculos e estaria trabalhando regularmente para a Kroll'', diz o documento.
O esquema de espionagem, conforme o relatório, envolvia também policiais federais, altos servidores do Banco Central, da Receita e da Caixa Econômica Federal, um juiz de São Paulo e o encarregado da distribuição de processos no Tribunal de Justiça do Rio. Era tão eficiente a captura de dados no setor público que até informações sob segredo de Justiça iam parar nas mãos dos espiões da Kroll sem dificuldade. Ao bisbilhotar a PF, os espiões descobriram que estavam sendo espionados pelos federais.
Conforme o relatório, ainda não se pode imputar crime ao ex-dirigente da Receita Federal, que chegou a ser cogitado para assumir o posto máximo do órgão no início do governo Luiz Inácio Lula da Silva, mas perdeu o páreo para Jorge Rachid. O documento que mostra a ligação do ex-funcionário da Receita com a Kroll é parcial e feito em cima de parte apenas dessa documentação. A PF acredita, também, que a colaboração com a Kroll teria ocorrido depois de Moraes deixar a chefia da Inteligência da Receita. No entanto, observa o relatório, ''é inegável o prestígio e a influência'' dele junto ao órgão.
O relatório da PF, de 54 páginas e cinco anexos, foi produzido a partir da análise de parte do material apreendido na Operação Chacal, realizada em outubro de 2004 e das interceptações telefônicas realizadas desde abril do ano passado com base em autorização judicial.
Trata-se da primeira análise importante que a Polícia Federal faz com base na documentação apreendida na busca feita em outubro de 2004, no grupo Opportunity e na casa da empresária Carla Cico, presidente da Brasil Telecom e braço-direito do banqueiro Daniel Dantas, dono do Opportunity.
Apesar de ser parcial, o documento monta o organograma da quadrilha de espionagem e identifica os autores e boa parte dos colaboradores. A investigação da PF identificou o que chamou de ''contorno de uma organização criminosa com atuação na obtenção, produção e difusão de documentação contendo dados protegidos por sigilo constitucional''.
Outro apanhado nas investigações é o ex-servidor do Banco Central Alcindo Ferreira. Ele já declarou, em depoimento à PF, que foi contratado pela Kroll apenas para ''traduzir'' códigos usados pelo BC em operações de câmbio. Os servidores corrompidos e colaboradores estão na base da pirâmide da organização, designados de ''subs'' nos relatórios da Kroll apreendidos.


