A prefeita Dorcelina Folador era professora e filiada ao PT quando decidiu disputar seu primeiro cargo político como vereadora em 1988. Apesar de ter sido a mais votada, ela não conseguiu se eleger por causa da legenda. Na campanha eleitoral daquele ano, Dorcelina teve grande adesão do MST e começou a apoiar as ocupações. Acompanhou uma, duas, três, quatro, cinco...nove.
‘‘Vi vários conflitos e não dava mais para voltar atrás. Seria muita covardia. Primeiro eu só acompanhava, mas depois me envolvi, saí da escola e participei de conflitos e despejos violentos. Relatei tudo como repórter popular do movimento’’, conta, com orgulho.
‘‘Não vi morte, mas vi muito companheiro com costela quebrada, marca de botina da PM, crianças e mulheres sendo jogadas nos caminhões’’, relata. Dorcelina diz que também já precisou fugir várias vezes de pistoleiros e enfrentar fazendeiros.
O despejo que mais lhe marcou foi em 1991, no município de Tacuru, a 140 quilômetros de Mundo Novo. ‘‘Ficamos 15 dias no meio da mata, sem contato com ninguém. Éramos 900 famílias e havia um grande cerco de policiais militares e florestais. A polícia queria confronto, falava que ia pegar a líder deficiente (no caso, Dorcelina). Nos três últimos dias ninguém dormiu porque as sirenes não pararam e os faróis não apagaram. Nós nos rendemos. Não havia como resistir’’, desabafa.
Dorcelina teve que aguentar a humilhação de ver os policiais mancando, para ironizar sua deficiência, na linha de frente da desocupação da fazenda. ‘‘Eles zombaram de mim para atiçar os sem-terra, que esboçavam reação. Mas nós tínhamos foice e enxada e eles, escopetas. Tive que impedir o confronto’’, relata.
A prefeita admite que não foi fácil suportar a violência e o preconceito, mas hoje considera-se bem resolvida. ‘‘Tive que superar minha própria limitação e venci’’, diz. Ela fundou a Associação Mundonovense de Portadores de Deficiência, mas acha que a sociedade ainda discrimina muito o portador de necessidade especial. ‘‘O preconceito contra o deficiente é ainda maior do que aquele contra a mulher, o negro e o índio’’, acredita, usando um botton do MST. (P.Z.)

mockup