Frei Betto vai atuar na mobilização do Fome Zero
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domingo, 05 de dezembro de 2004
Cristiane Oya<br> Reportagem Local 
O assessor especial da Presidência da República, Frei Betto, admitiu ser muito mais fácil ser oposição do que governo. Frei Betto, que deixa o cargo e o governo federal este mês, participou neste final de semana do 4º Encontro Nacional de Fé e Política em Londrina.
''É muito mais fácil, muito mais cômodo (ser oposição), enfim, muito mais fácil. Agora, por ser governo, aumenta a responsabilidade. Quando a gente está na oposição, é muito mais cômodo'', admitiu.
Membro do governo federal desde o início da administração de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), seu amigo pessoal, Frei Betto decidiu deixar o cargo para se dedicar aos movimentos sociais e à literatura. ''Não é o meu perfil fazer parte de poder público. Nunca tinha tido essa experiência e por insistência dele aceitei, mas disse que vou por um tempo, para ajudar a montar a mobilização social do Fome Zero e principalmente a equipe que cuida da educação cidadã, das famílias beneficiadas pelo Fome Zero. Fiz essa tarefa e estou voltando à minha vida anterior, sobretudo porque quero me dedicar à literatura'', justificou. A assessoria deverá passar para as mãos do engenheiro André Spitz e de outra pessoa, cujo nome ainda não foi revelado.
O assessor disse que nos dois anos que esteve no cargo, conheceu a dificuldade de articular os poderes em torno dos projetos. ''Descobri que o poder Executivo pode menos do que a gente supõe, na medida em que ele pode ter idéias que são transformadas em projetos de lei, até em medidas provisórias, mas isso depende de aprovação do Congresso, depende também da postura do Judiciário. Tanto o Congresso quanto o Judiciário no Brasil, têm um perfil que tende mais para o conservador, então essa interação entre os três poderes da República é uma alquimia complexa e eu aprendi dentro do governo a ter essa dimensão que eu não tinha antes. Eu acreditava ingenuamente que o presidencialismo brasileiro decorresse da vontade pessoal do presidente e as coisas não acontecem assim'', reconheceu. ''Políticas de governo é uma coisa, o difícil é transformá-las em políticas de Estado. A estrutura do Estado brasileiro não foi feita para servir os mais pobres, foi feita para servir a elite brasileira. Essa contradição de um governo progressista, de origem popular, e a estrutura conservadora e elitista do Estado é uma operação complexa'', analisou. ''Talvez eu tivesse uma expectativa um pouco acima daquilo que a realidade comporta, mas não saio frustrado. Saio feliz pela contribuição que dei, por ter tido a honra de participar do governo Lula.''
Na avaliação de Frei Betto, a ampliação dos programas sociais federais são fundamentais para o futuro do país. ''O país não tem futuro a não ser reduzindo a desigualdade. Sem essas mudanças vamos caminhar para uma sociedade cada vez mais na linha da barbárie, da violência, do desespero e o presidente é muito consciente disso'', disse.


