A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Títulos Públicos obteve avanços na mais longa sessão até agora - 10 horas e 23 minutos de tomada de depoimento e de acareação que envolveu 10 pessoas. Além de confirmar que a fraude com os títulos foi montada na Secretaria de Finanças do Município de São Paulo, pôde ouvir do próprio banqueiro Fábio Nahoum, do Banco Vetor, a confissão de corrupção ativa.
Durante os trabalhos que começaram por volta das 17 horas de quarta-feira e terminaram às 3h23 da madrugada de ontem, os senadores da CPI apuraram ainda que o cérebro da operação de fraudes não foi o ex-coordenador da Dívida Pública de São Paulo, Wagner Baptista Ramos, como se pensava até aquele momento. O cérebro teria sido Nivaldo Furtado de Almeida, chefe do serviço de informática da Secretaria de Finanças de São Paulo durante a gestão de Celso Pitta.
O disquete com o programa de correção das dívidas dos Estados e municípios, com as formas de se transformar débitos atuais em precatórios de antes de 1988 e, o mais importante, com uma supervalorização monetária de mais de 140% teria sido criado por Nivaldo, conforme depoimentos de Wagner Baptista Ramos e Pedro Neiva. Wagner Ramos era, na opinião dos senadores, o cérebro de outro setor: o da corrupção, que envolveu os Banco Vetor e Máxi-Divisa, dezenas de corretoras, ‘‘laranjas’’ - que fornecem o nome para que um terceiro ganhe muito - e empresas fantasmas.
Depoimentos e acareação mostraram que, embora envolvidos no mesmo tipo de fraude, nas mesmas operações financeiras, os personagens nem se conhecem - ou fingem não se conhecer. As contradições entre o que falam os envolvidos foram claras e, como em todo o processo do submundo das fraudes, existem tentativas de extorsão, ameaças de morte e mentiras.
Na fase final do depoimento praticamente todos os que participaram da acareação disseram que os outros eram mentirosos. Participaram da acareação o dono do Banco Vetor, Fábio Nahoum; os diretores da Corretora Perfil, Rubens Cenci da Silva, Luís Calábria e Gerson Martins; os donos da Corretora Negocial, Fábio Pazzanese Filho e Luiz Carlos da Cunha Priolli e o ex-coordenador da Dívida Pública de São Paulo Wagner Ramos. Ao final, houve quase que um pedido coletivo de desculpas e perdão ao País. Os três da Perfil se disseram envergonhados. Wagner Ramos pediu desculpas ao povo e à Nação brasileira.
A acareação não conseguiu desvendar muitos mistérios. Entre eles, quem participou de uma estranha reunião, em São Paulo, para decidir uma operação de queima de documentos no Rio de Janeiro. Um dizia que viu o outro, mas o outro dizia que lá não tinha estado. O relator da CPI, senador Roberto Requião (PMDB-PR), fez um apelo para que ajudassem o Brasil. A maioria deles limitou-se a abaixar a cabeça e a dizer que não tinham condições de apontar ninguém.
Outro ponto obscuro é o destino dos R$ 40 milhões que o Banco Vetor alega ter pago a Wagner Ramos, por intermédio da Perfil. Ninguém sabe para onde voou tão grande quantia. Wagner confessou que para ele foi destinado US$ 1,39 milhão, depositado em contas no exterior.

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