Brasília - Seis meses antes de o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) revelar ao País o escândalo do mensalão no Congresso, a Polícia Federal interceptou ligações telefônicas de integrantes de uma organização envolvida em um esquema de fraudes previdenciárias nas quais o assunto predominante era propina na Câmara e Delúbio Soares, então tesoureiro do PT. Foram captadas citações ao ex-chefe da Casa Civil José Dirceu, ao próprio Jefferson e ao Banco Rural, suposto caixa do esquema de mesada dos parlamentares.
As gravações foram feitas entre janeiro e fevereiro pela PF em Porto Alegre, base da quadrilha liderada pelo argentino Cesar de la Cruz Mendoza Arrieta. Ele foi capturado em abril pela Operação Tango, formalmente acusado da prática de crimes financeiros e lavagem de dinheiro.
A transcrição das conversas entre Marcio Pavan - principal aliado de Arrieta - e outros dois suspeitos, identificados como Marcelo e Denis, foi enviada há pelo menos 3 meses ao delegado Paulo Lacerda, diretor-geral da PF, em Brasília.
A PF não informou, porém, que providências adotou diante das revelações flagradas na escuta telefônica. Somente agora cópia do laudo policial com a íntegra dos diálogos deverá ser encaminhada à Procuradoria-Geral da República. A assessoria de Antonio Fernando de Souza, procurador-geral, informou que até ontem o Ministério Público Federal não recebeu nenhuma comunicação da PF acerca do grampo.
A turma de Arrieta trata inclusive de uma coleta de R$ 10 milhões que o PT teria repassado ao PTB. Os diálogos são cifrados. Num deles, a 26 de janeiro, Pavan pergunta sobre uma determinada conta. Durante 7 minutos de conversa, Denis respondeu: ''É da Câmara dos deputados, do 001, que tem de levantar 10 para fechar com o trabalhista e os outros lá, que é encomenda do 001, só que está faltando 70 mil e que já mandou 50 mil de um outro negócio que estão conduzindo pra gente.'' Outra gravação: ''É 70 mil para fechar os 10 milhões na segunda-feira.''
Em 27 de janeiro, uma citação a Delúbio. ''Ele (Denis) pediu ajuda para acertar o negócio com o Delúbio, que no miolo é Tarcisio e Aucelis. O Delúbio precisa fazer uma caixinha perto dos rolos que ele fez, quer 70 mil reais.'' No mesmo dia, Pavan conversa com Marcelo e faz referência a Dirceu. ''Estou no aguardo de uma conversa com o próprio Zé Dirceu, assunto do Goiabeira.''
''É conversa fiada, isso tudo é bobagem'', reagiu a defesa do ex-tesoureiro do PT, por meio de um de seus advogados. ''Delúbio não tem nada com esse Arrieta.'' Em nota, José Dirceu negou ligação com a máfia do INSS.

mockup