Arquivo FolhaFogo CruzadoLopes confirma que manteve contato com os irmãos Sérgio e Luiz Augusto Bragança, mas considera levianas acusações‘Quero ver como ele vai se sair dessa’, diz senador Saturnino BragaO ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes prestará depoimento hoje à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investiga denúncias de irregularidades no Sistema Financeiro. O bilhete encontrado pelos procuradores do Ministério Público que vasculharam as residências do ex-presidente do Banco Marka Salvatore Cocciola e do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes aumentou a desconfiança dos senadores que integram a CPI dos Bancos sobre as operações de socorro do Banco Central aos bancos Marka e FonteCindam.
No bilhete encontrado na casa de Cacciola, reproduzido na edição da revista ‘‘Istoɒ’ desta semana, o ex-banqueiro pede para ser recebido por Lopes ou, se isso não fosse possível, que o então presidente do BC interferisse para que o então diretor de Fiscalização, Claudio Mauch, fosse ‘‘menos rigoroso’’ e aceitasse negociar ‘‘um preço razoável’’ para a operação de socorro. Cacciola encerra o bilhete dizendo que ficaria satisfeito em não dar um prejuízo ao mercado e sobreviveria com uma empresa não financeira para recomeçar sua vida e ‘‘esquecer tudo’’ - expressão sublinhada pelo autor do bilhete.
‘‘Quero ver como ele (Lopes) vai se sair desta’’, disse ontem o senador Roberto Saturnino Braga (PDT-RJ). ‘‘No momento em que sublinhou a expressão, ela pode significar esquecer algum favor ou benesse, do contrário não teria sentido, esquecer tudo pode ter um significado muito importante’’, justifica o senador. ‘‘O bilhete terá que ser explicado, em detalhes, tanto pro Chico Lopes quanto por Cláudio Mauch’’, afirmou o senador Eduardo Suplicy (PT-SP).
‘‘Ele vai ter que esclarecer por que recebia bilhetes irreverentes de Cacciola já que afirma não conhecê-lo’’, sustenta o relator da CPI, senador João Alberto (PMDB-MA), que solicitará hoje ao Banco Central uma cópia do depoimento prestado por Lopes na sexta-feira à comissão de sindicância que apura responsabilidades pelas operações de socorro aos bancos Marka e FonteCindam. Para questionar Lopes com perguntas consistentes, o senador enviou um assessor ao Rio de Janeiro, no final de semana, com o objetivo de analisar o conteúdo dos documentos apreendidos pelo Ministério Público na casa do ex-presidente do BC na última sexta-feira.
Para o relator, os novos fatos revelados pela imprensa no final de semana podem mudar os rumos da CPI. ‘‘Agora temos fatos concretos sobre os quais nos debruçar’’, afirma, mencionando o bilhete de Cacciola e os informantes da revista ‘‘Veja’’, que teriam ouvido do ex-presidente do Marka que este tinha informações de dentro do BC de que o câmbio não mudaria.
O senador Saturnino Braga disse que irá pedir a convocação das pessoas citadas na revista ‘‘Veja’’ e também os controladores do Banco Boavista e os irmãos Sérgio e Luiz Augusto Bragança, citados pela revista Época como ex-sócios de Lopes na empresa de consultoria Macrométrica, que estariam vendendo informações privilegiadas obtidas junto ao ex-presidente do BC para os bancos Marka, FonteCindam e Boavista. Para o senador Suplicy, a ex-chefe do Departamento de Operações das Reservas Internacionais do BC, Maria do Socorro Carvalho, tem que ser convocada por ter assinado as autorizações para a efetivação das operações na BM&F. O relator concorda com essa convocação e diz que ela será ouvida oportunamente. Suplicy disse ainda que Salvatore Cacciola tem que ser ouvido pela CPI ainda nesta semana.
O relator da CPI quer esclarecer também outras dúvidas, a começar pelo motivo que levou o BC a socorrer o Marka, um banco sem grande expressão no mercado financeiro. ‘‘Que banco tão importante era esse que poderia aluir (abalar) o sistema financeiro’’, indaga João Alberto. Outra questão que inquieta o relator é o fato de o deferimento da operação ter sido aprovado no mesmo dia da solicitação. Uma ‘‘velocidade burocrática impressionante’’, segundo o relator. ‘‘Não quero prejulgar ninguém, mas os indícios são grandes’’, afirma o senador, que está apelando para a colaboração de quem tenha informações concretas a prestar à CPI. ‘‘Quando suspendermos um pedaço do iceberg, a coisa aparece’’, prevê João Alberto.
A desconfiança do relator é compartilhada por outros integrantes da CPI. Depois de passar o domingo debruçado sobre o relatório que o Banco Central entregou à comissão na semana passada, o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) promete fazer muitas perguntas a Lopes. Mas, em primeiro lugar, ele quer saber se, com a ajuda ao Marka e ao FonteCindam, ‘‘o governo Fernando Henrique Cardoso descobriu um programa de renda mínima para os bancos’’.
Segundo Suplicy, nos depoimentos da semana passada, o atual presidente do BC, Armínio Fraga, e o diretor de Fiscalização, Luiz Carlos Alvarez, disseram que a meta do Banco Central deve ser a de trabalhar para ter um sistema financeiro com risco zero. ‘‘É pelo menos estranho este sistema de vender dólares barato para garantir que o Marka e FonteCindam saíssem sem problema no momento da mudança da política cambial’’, afirmou o senador. O senador paulista prometeu ainda incluir na pauta da CPI o Proes, o programa de ajuda aos bancos estaduais, que, segundo o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Franco, injetou R$ 100 bilhões na tentativa de sanear os bancos estaduais.
O senador Eduardo Siqueira Campos (PFL-TO) não revela as principais perguntas que fará ao ex-presidente do BC alegando que a divulgação antecipada facilitaria a preparação das respostas. Ele revela, no entanto, que está incomodado com o fato de Lopes ter omitido a operação de socorro ao Marka e ao FonteCindam durante a sabatina realizada na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado antes de sua nomeação para a Presidência do BC ser ratificada. ‘‘Quero saber por que ele não se pronunciou a respeito mesmo tendo sido questionado diretamente sobre o assunto’’, avisa Siqueira Campos, que está cobrando do Banco Central os pareceres jurídicos sobre as operações. O senador considera ‘‘preocupante’’ o fato de o BC ter permissão legal para vender dólares de forma diferenciada aos bancos.

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