O ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes vai apresentar hoje à tarde, na CPI dos Bancos, segundo seus advogados, a ‘‘verdade de forma inteira’’ e deixar de lado ‘‘a defesa de fatos isolados’’. Lopes chegou ontem de manhã a Brasília, acompanhado do advogado do Rio, Luís Guilherme Vieira. Os dois juntaram-se ao advogado de Brasília, José Gerardo Grossi, em um hotel da cidade, para preparar o depoimento à CPI.
Questionado sobre os argumentos que o ex-presidente do BC vai usar para justificar a suposta conta de US$ 1,675 milhão no exterior, Vieira disse: ‘‘O professor vai restabelecer o fato por inteiro e não como fragmento’’. Vieira criticou a atuação do Ministério Público e dos senadores que estariam sob o efeito ‘‘de holofotes’’. Antecipou, também, a possível linha de defesa do ex-presidente do BC para o fato de ter pedido o adiamento do depoimento marcado para segunda-feira passada, apesar de estar em Brasília.
‘‘No dia em que disseram que ele havia se suicidado? É esse o homem que vocês queriam que fosse levado para depor? , afirmou Vieira, referindo-se aos boatos que correram na cidade sobre a depressão e o suicídio de Lopes. Nesse dia, o boato chegou aos ouvidos dos familiares, no Rio, que ligaram, chorando, à procura de Lopes em Brasília. Um dos telefonemas foi para a assessoria do ministro Pedro Malan (Fazenda), perguntando o paradeiro do ex-presidente do BC.
Para o advogado, a ação dos procuradores e dos agentes da PF, que entraram com autorização judicial no apartamento de Lopes e apreenderam documentos, é ilegal. Pior, disse, é o vazamento de documentos que estavam sobre segredo de Justiça.
‘‘Qualquer papelucho ganha características de documento. Como o Ministério Público explica o vazamento de documentos encontrados na casa do senhor Cacciola (Salvatore Cacciola, dono do Banco Marka), que estavam sob segredo de Justiça?’’, perguntou Vieira. Luís Guilherme Vieira não soube dizer se Lopes fez a declaração de IR todos os anos. Disse que não conversou com ele sobre isso.
Bom senso O comando da CPI dos Bancos avalia que o rumo das investigações sobre a relação do Banco Central (BC) com o mercado financeiro, com destaque para o ainda não esclarecido envolvimento do ex-presidente do BC Franciso Lopes em graves denúncias, está extrapolando o limite do bom senso. Tanto o presidente da comissão, senador Bello Parga (PFL-MA), quanto o vice, senador José Roberto Arruda (PSDB-DF), consideram que há uma exagerada exposição de fatos à opinião pública, sem que estes tenham sido devidamente apurados. Eles alertam que o risco dessa ‘‘superexposição’’ é a falta de equilíbrio da CPI e a injustiça com pessoas sob investigação.
O senador José Roberto Arruda avalia que há um descontrole a partir da investigação simultânea sobre o sistema financeiro, feita pelo Ministério Público, Polícia Federal, Banco Central e Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) no Senado, e aquecida pela luz dos holofotes. Arruda revela sua preocupação sobre o risco que corre a CPI, instalada há menos de duas semanas. ‘‘Como as pessoas envolvidas na investigação trabalham sob a luz dos refletores, e como refletor provoca um aquecimento mental - e isto ainda não é tese médica, mas pode vir a ser - afetando as células da vaidade, sem querer as pessoas se desviam do rumo próprio das investigações’’. E completa: ‘‘Estamos caindo naquela máxima de um fato por dia e, se não tiver, se cria’’.
‘‘Há um exagero na divulgação de fatos que sugerem indícios de graves irregularidades’’, concorda o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) que, entretanto, avalia ter o Banco Central uma boa parcela de responsabilidade nessa onda de denuncismo. ‘‘Tudo isso mostra que, apesar de tantos escândalos que ocorreram na área do Banco Central, como os casos Nacional, Bamerindus e outros, o Banco Central não fez nada para melhorar sua fiscalização’’, condena o senador. ‘‘Quando há reuniões econômicas, eles isolam os políticos, para os políticos não falarem o que ocorreu’’, critica.

mockup